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domingo, 9 de março de 2014

Moonchild

Devo iniciar esta resenha pedindo desculpas á Bastian Baltazar Bux. Pois passei a infância inteira acreditando que o moleque era um bobão, por nunca conseguir proferir o novo nome para a Imperatriz Menina. Atribuo parte da culpa à dublagem brasileira (a original dos anos 80, e a nova versão para DVD), que resolveu nem traduzir, nem usar o nome original que a menina recebeu. Substituindo a fala "Moonchild", por "Eu vou salvá-la!" e deixando a moça sem nome em nosso idioma.

Dito isso, quem é essa menina, e porque o tal do Bastian precisava salva-la/nomeá-la afinal de contas? Caso você tenha ficado preso em meio ao Nada nas últimas 3 décadas, conheçam A História Sem Fim.

Pobre Bastian, acaba de perder a mãe, e ainda é vitima de bullying lá nos inigualáveis anos de 1980, quando este termo nem existia ainda. Ávido leitor, até conhece o Rei dos Anéis (palmas para a dublagem nacional!) aparentemente foge dos problemas da vida real, pelos livros. Chega ser até poético que o moleque se esconda dos valentões em uma livraria. É de lá que ele surrupia o livro que título ao filme, e como já estava atrasado, resolve matar aula no assustador sótão da escola para ler...

O reino de Fantasia está ameaçado, o Nada está tomando conta de tudo, e a própria regente desta terra está mortalmente doente. É por isso que o mais valente guerreiro das planícies é convocado. Apenas um menininho, Atreyu deve descobrir a cura para a Imperatriz menina, e salvar Fantasia.


Então atravessamos as Montanhas Prateadas, o Deserto das Esperanças Destroçadas, o Pantano da Tristeza  a Montanha da Carcaça, om Oráculo do Sul entre outras locações fantásticas. Repare que eu disse atravessamos, pois é disso que se trata o filme. Atreyu leva Bastian para uma aventura, e Bastiam leva você caro expectador para outra também.

E o mais interessante de toda essa metalinguagem é o conceito de que um leitor vive mil vidas antes de morrer*. Nos tornamos os personagens que acompanhamos. Prova disso, é o segundo portal para o Oráculo do Sul, sobre o qual certo personagem afirma, que valentes se descobrem covardes, imperadores se descobrem súditos, mágicos se descobrem pessoas comuns. Personagem, se descobre leitor e, no caso da mágica do longa, vice-e-versa. Impossível não imaginar se o leitor fosse outro Atreyu também seria?

Mas isso tudo só percebi agora depois de crescida. Dos tempos de infância fiquei com a vontade de ter um Dragão da Sorte, um Aurin, ler A História Sem Fim, e com o estranho hábito que Bastian tem de levantar a cabeça dos livro, e pensar alto após cada acontecimento bombástico (lendo G.R.R. Martin, pode gerar torcicolo). Sério, eu faço isso!

Adquirir hábitos e sonhos de consumo infantis, ou encontrar inúmeras metáforas não seria possível se A História Sem Fim não fosse uma fantasia encantadora e bem produzida. Com roteiro coerente e ótimos efeitos especiais e maquiagem apesar da limitação tecnológica da época. Duvido que um Falcor de CGI consiga ser tão realista e carismático quando o gigante motorizado de 43 metros de comprimento com 6.000 escamas de plástico e pena rosa.

Além disso a aventura não poupa as crianças com o exagerado "politicamente correto" dos dias de hoje. Atreyu sangra, perde amigos, quase morre e nenhum expectador da sessão da tarde precisa de terapia, ou virou psicopata por isso. A maioria apenas viveu uma grande aventura, e só!
Primeira cena que me lembro que me deu aquele "nó na garganta"
Ok, o filme é mais eficiente se você tem 9 anos. E talvez não impressione tanto as crianças de hoje em dia criadas à base CGI. Mas ainda diverte, e ainda traz metáforas e detalhes que quando pequeno você não percebera, como o fato da Imperatriz se chamar Moonchild. É interessante, mesmo após 30 anos, o que mais podíamos querer de um filme infantil?

*Um leitor vive mil vidas antes de morrer, o homem que nunca lê vive apenas uma!George R. R. Martin.

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