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domingo, 6 de julho de 2014

Quem vê tesouras, não vê coração

Antes de ser Sparrow, Wonka, ou mesmo de reconhecê-lo pelo nome correto, Johnny Depp sempre foi Edward Mãos de Tesoura. Resultado das incontáveis reprises da Sessão da Tarde, ainda nos bons tempos do politicamente correto. Mas também mérito da primeira parceria acertada entre Burton e Depp.

Edward (Johnny Depp) foi criado, literalmente, por um bom velhinho inventor (Vincent Price), que teve a ideia de criar um homem a partir de um coração de biscoito. Outra boa pessoa é Peg (Dianne Wiest), que anos mais tarde encontra Edward não terminado, sozinho e completamente perdido e adota o rapaz sem hesitar. Também é, suspeitosamente sem hesitar (e com curiosidade nível fofoca), que cidadezinha aceita o rapaz tesouras no lugar das mãos.

Suspeitosamente, afinal "quando a esmola é demais, o santo desconfia". E estes vizinhos de casas em tons pastéis e visual mega colorido logo, se apresentam seus interesses. São do tipo que apoiam o herói, enquanto ele está por cima, mas são os primeiros a rejeitá-lo quando a situação muda. E é claro que ela muda! Mas a essa altura, você expectador honesto, já está do lado de Edward. Apesar de sua aparência, por falta de palavra melhor, gótica.

Figura intrusa na padronizadamente alegre vizinhança.
E por falar em aparência, o caprichado design de produção acerta ao criar as perfeitas casa iguais e aparência de comercial de eletrodomésticos dos anos 60, da vizinhança. Em contraponto ao sombrio, porém belo e lúdico castelo do inventor. Evidenciando a vida pacata de rotinas forçadamente iguais, onde nada de novo acontece. E consequentemente o impacto que a chegada de alguém tão diferente pode causar.
Gótico + mágico + lúdico = Burtonesco!!!
É claro, nenhuma produção é perfeita, ainda não sei como Kim (Winona Ryder)chega primeiro na mansão, o namorado malvado (Anthony Michael Hall, o nerd de O Clube dos Cinco) também passou despercebido, pelo carro policial e a multidão irada com tochas. Estes alguns saltos de roteiro poderiam ser desenvolvidos de forma mais fluida, mas nada que comprometa muito o enredo.

Não julgar pelas aparências, o valor da individualidade e a dificuldade de aceitar, conviver e até defende-la. Além de o quão nocivo e alienador fazer de tudo para ser aceito, embora a grande maioria prefira viver assim. Essas são algumas das lições que este conto de fadas moderno coloca na berlinda. E quem diria, duas décadas e meia depois, em plena era do "minha timeline é mais interessante que a sua", os temas continuam atuais. Todo mundo quer provar que é único e especial, a ponto de editar suas vidas para exibir seu "melhor lado". O problema é: todo mundo faz isso!

Quem vê cara, tesoura ou mesmo perfil, ainda não vê coração.


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