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sábado, 5 de julho de 2014

Um conto de Natal nada convencional


O homem que fazia nevar
Tim Burton é um cara que sabe contar histórias e encantar - mesmo que a história seja um tanto assustadora. Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorshands, 1990) é um belo exemplo disso. Quando é que alguém trataria uma história sobre um ser não humano adotado por uma revendedora da Avon e que no lugar das mãos tem várias tesouras/lâminas e achar uma coisa absolutamente normal? Aliás, toda a cidade também achou, mas isso nem é importante. O importante é que Edward saiu da cabeça de Burton para nos encantar e se tornar um queridinho entre os cinéfilos.

Assim começa uma aventura
O filme começa numa noite de fria do inverno americano, perto do Natal, e uma simpática avozinha conta para a neta uma estorinha para ela dormir. Lá no alto do morro que ela conseguia ver pela janela do quarto, há muito tempo atrás, viva um ser estranho e solitário. Meio homem, meio máquina, não estava completo quando seu criador morreu. Faltavam-lhe mãos, e no lugar dela ele tinha tesouras afiadíssimas, com as quais cortava e criava esculturas magníficas nos arbustos nos jardins da mansão em que vivia isolado. Um dia, uma jovem senhora, revendedora de Avon, decidiu que poderia arrumar um cliente novo se ela fosse ousada. Como não dava sorte com as vizinhas fofoqueiras, ela tentou a sorte. Encontrou Edward (Johnny Depp) lá dentro, e o trouxe para sua casa. Enquanto tentava encontrar a fórmula certa da mistura de cremes que cobrissem as cicatrizes no rosto do rapaz e lhe dessem uma coloração saudável, Peg (Dianne Wiest, excelente) ajudava Edward a se ajustar á sua família e à rotina de um bairro tranquilo.

Vai um espetinho aí?
O que para ela era uma boa ação, para a vizinhança era um acontecimento. Todos queriam saber quem era aquele estranho que tinha finalmente saído de seu refúgio e ido viver com a família de Peg. Quando descobrem as maravilhas que Edward consegue fazer com suas "mãos", ele vira o queridinho do bairro: com um toque de genialidade artística, Edward esculpe novos arbustos na região, apara pelos de cachorro e até os cabelos das senhoras. Tudo parecia ir bem, mas Kim (Winona Rider), filha de Peg, ainda não consegue se habituar ao rapaz. Ele também enfrenta dificuldades de se adaptar: sua ingenuidade o leva a diversas confusões, inclusive uma tentativa de assalto e outra de assédio sexual - nesse caso, a vítima era o próprio Edward. É nessa hora que as pessoas começam a considerar o perigo de tantas lâminas afiadas por perto. 

"Mãos para cima!"
Edward é defendido com unhas e dentes por Peg, mas a situação se complica quando ele tenta defender o pequeno Kevin (Robert Olivieri) de ser atropelado e acaba ferindo-o, logo depois de ter machucado - também acidentalmente - Kim. O bairro todo se volta contra o rapaz, que, revoltado, resolve voltar para seu lar. Lá ele ainda enfrenta o namorado de Kim, Jim (Anthony Michael-Hall), que não aceita que a namorada o troque por um esquisitão. Eles brigam e Jim acaba morto, e Kim sabe que mesmo que provem que fora ele quem começou a briga, não haveria paz para Edward se o pegassem. Ela confessa seu amor ao jovem, mas opta por abandoná-lo em sua casa para que ele viva em paz. Apresenta aos vizinhos um protótipo de mão idêntico ao que Edward usava e alega que os dois se mataram - como havia sido a única testemunha do ocorrido, o povo acredita em sua palavra e o deixam em paz. E ela sabe que Edward ainda esta vivo porque todo ano a neve começa a descer da montanha, e é sinal de que ele está lá esculpindo enormes blocos de gelo em estátuas das mais lindas possíveis.

Sempre quis saber onde ele encontrava os blocos de gelo para esculpir...
Fofo, não é? Sempre digo que Tim Burton deve ser um cara muito romântico, mas sua mente trabalha de um jeito diferente o romantismo. Apaixonar-se por um sujeito com sérios problemas de ajuste social e tesouras afiadíssimas no lugar de mãos não é a coisa mais fofa que existe, mas ele faz parecer crível e nos emociona. Se até um robô pode ser educado e aprender a amar, por quê nós não poderíamos aprender também? Se ele, com todo o sofrimento e solidão que passou, com toda o preconceito que enfrentou, continuava a ser gentil e educado, a gente também dá conta. Uma enorme lição de moral foi-nos passada de uma forma singela e divertida (quem não se diverte com os pelos e coisas voando quando ele corta as coisas alucinadamente? Ou quando ele sofre tentando se ajustar aos mundo tão hostil ao que é diferente?)e nem percebemos. É difícil achar quem não goste desse filme, ou de Johnny Depp neste papel. A parceria começou com o pé direito e nos encheu de expectativas para os futuros projetos, pois sempre que se ouve falar em Johnny Depp e Tim Burton numa mesma produção, esperamos por um novo Mãos de Tesoura. Ninguém mandou nos acostumarem mal.

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