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sábado, 20 de setembro de 2014

Um filme família


Albert (Lane) em um de seus ataques de estrelismo: coisa de diva
O que esperar de um filme que tem um casal de gays que comanda uma boate gay com shows de drag queens chamada Gaiola das Loucas? Se você esperava muito glamour, interpretações afetadas e piadas grotescas sobre gays a cada cinco minutos, com certeza vai se decepcionar com este A Gaiola das Loucas (The Birdcage, 1996). Agora, se você não estava esperando nada disso, então sinta-se felizardo por apreciar essa boa amostra de entretenimento de qualidade. Focado em um argumento simples e no talento de seus atores, o longa - baseado em uma peça de teatro - tem brilho próprio justamente por causa do elenco escolhido a dedo. Sem errar a mão nas afetações, todos os atores em cena acertam o tom de seus personagens e os tornam críveis, dignos de serem pessoas encontradas facilmente na próxima esquina.

Armand Goldman (Robin Williams) é dono da The Birdcage, uma badalada boate gay na ensolarada South Beach. Ele é casado há anos com Albert (Nathan Lane, perfeito!), que também é conhecido como Starlina, a atração maior da boate. Desconfiado de que Armand tenha arrumado um amante, Albert começa a ter crises de ciúmes. Mas o jovem rapaz que vai visitar Armand à noite é ninguém menos que seu filho, Val (Dan Futterman). Ele tem notícias para o pai, que caem como uma bomba sobre a família: ele pretende se casar. O que ele não contou de primeira para o pai era que Barbara (Calista Flockhart), a moça por quem estava apaixonado, era filha de um político conservador.

Armand (Williams) tenta ensinar a Albert (Lane) como parecer um homem macho: hilário é pouco!
Kevin Keeley (Gene Hackman, sensacional) é um senador candidato à reeleição, mas acaba de ver seu nome associado a um escândalo moral quando outro político de seu partido é encontrado morto ao lado de uma prostituta negra menor de idade. Preocupado com a repercussão desse caso na imprensa, ouve os conselhos da mulher, Louise (Diane Wiest, ótima), e tenta fazer com que o anúncio do casamento de Barbara e Val sufoquem os boatos envolvendo o colega promíscuo e garantam as aparências. Nem preciso dizer que Barbara enganou os pais para que eles não descobrissem que os pais de seu noivo eram gays, não é? Pois bem. Apesar de não ter vergonha de seus pais, Val sabia que precisava impressionar os pais de Barbara no primeiro encontro. Por isso, pede que o pai mude toda a sua casa, sumindo com as referências gay, e acaba convidando a mãe biológica - que ele não via desde criança - para o jantar de apresentação das famílias. E Albert? A alma sensível e artista do companheiro de Armand estava em frangalhos, enquanto tentava se acostumar a ficar de fora do momento mais especial da vida de seu filho. Pobre Albert!

Agador (Azaria): mil e uma utilidades
O jantar ocorre sob muitas expectativas: Armand e Val querem parecer normais, o senador e a esposa querem ser aceitos por uma família (até então) respeitável, a imprensa esperava do lado de fora para saber o que o senador conservador fora fazer em uma boate gay... Até Agador (Hank Azaria, hilário), o braço direito dos Goldman, queria impressionar a família da noiva - e manter-se em pé nos sapatos. Com diálogos inteligentes e atuações inspiradas, a situação do "não podemos deixar esse jantar ir por água abaixo, vamos manter as aparências" não podia ser mais divertida: as famílias tentando se impressionar mutuamente rende boas risadas, não só pela tragicomédia da situação em si, mas também porque todo mundo, um dia, já se viu numa situação parecida. E é nisso que o filme é genial. Não precisa ter um casal gay na família para se identificar com aquele constrangimento, basta ser parte de um grupo social qualquer (família, amigos, trabalho) que já dá para fazer um paralelo com o acontecido em cena.

A naturalidade com que atores e diretor lidam com a questão do filho criado por gays é um refresco - e olha que estamos falando de um filme feito há quase 20 anos, quando o preconceito era ainda mais forte! Val parece bem resolvido e aceita que os pais sejam casados, e sente-se constrangido de ter que pedir que o pai finja ser quem não é somente porque ele pediu. Hoje vivemos com uma maior tolerância a esse tipo de convivência, mas me pergunto o quão corajoso esse filme pareceu na época de seu lançamento. Mérito para diretor e atores, que poderiam ter estragado o bom argumento com interpretações acima do tom e uma mão mais pesada na comédia pastelão - mas, graças a Deus!, não é esse o caso. Williams não perde o foco: gay e afetado sim, mas com orgulho e sem medo de ser o que é. Essa é a graça de seu Armand, um homem apaixonado pelo companheiro e pelo filho, que tem que se desdobrar para tentar ajudar a um sem magoar o outro, tentando não se trair nem trair a confiança que seu filho depositava nele. As melhores cenas cabem a Lane, quando ele tenta fazer seu Albert - tão feminino e frágil - parecer um homem brucutu, e a Hackman, que está impagável com seu senador  conservador que não aceita a realidade perante seus olhos. 

Um jantar em que tudo o que poderia dar errado, dá.
O final se desenha de forma um tanto previsível, mas ainda assim é irresistível e engraçado. Um filme leve, divertido, emocionante, que busca quebrar preconceitos e diz, com todas as letras, que não tem porquê achar que gays são diferentes. Todos nós vivemos de aparência, independente de opção sexual ou classe social, e nosso joguinho cruel de tentar parecer normais só nos torna mais ridículos. Melhor mesmo é ser quem realmente somos. Quando nos identificamos com os personagens da tela, quem quer que seja, nós percebemos que aquilo poderia ser parte da nossa vida aqui fora - e a situação pela que passam os Goldman poderia acontecer a qualquer um. Quer forma melhor de ensinar essa lição do que nos fazendo rir de nós mesmos? Gaiola das loucas é um filme que talvez não entre para minha lista de favoritos, mas com certeza valeu muito a pena ver.

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