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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Êxodo - Deuses e reis


Moisés (Bale): são poucas as cenas de batalha, mas elas são maravilhosas

O diretor Ridley Scott gosta de se arriscar. Nem sempre acerta, mas não tem medo de se desafiar e tampouco se acomoda em um só estilo ou gênero. Sendo assim, fui assistir Êxodo - Deuses e reis (Exodus - Gods and Kings, 2014) com um certo receio. Afinal, a história de Moisés salvando o povo hebreu da escravidão de seu irmão faraó é pra lá de conhecida, e não dá pra fugir de um certo misticismo ao contá-la. Pois o diretor conseguiu nos entregar uma produção luxuosa, repleta de efeitos especiais e batalhas espetaculares, repaginou um anti-herói e não caiu no piegas. Em outras palavras, ele conseguiu equilibrar todos os pratos que tinha na mão e não deixou nenhum cair - e só essa façanha já merece aplausos.

Ramsés (Edgerton): ele mal sabia o que estava por vir
O filme começa com Moisés (Christian Bale) já adulto e general do exército de seu pai, o faraó Seti (John Turturro), ao lado de seu irmão Ramsés (Joel Edgerton). Fica óbvio que ele sabe de sua posição de privilegiado, mas impossivelmente herdeiro do trono por não ser filho legítimo de Seti. Ainda assim, o pai os ama igualmente, e chega a confessar a Moisés que confiava mais nele liderando seu povo do que o próprio herdeiro. Quando uma profecia insinua que um comandante será salvo em batalha e haverá uma cisão entre eles, pois um comandará exércitos e outro liderará um povo, a relação entre Ramsés e Moisés fica estremecida. Após ser salvo por seu irmão em batalha, Ramsés passa a temer que a profecia se realize - mesmo que ambos sejam descrentes dela. Depois de Moisés ir até Píton averiguar uma queixa do vice-rei e lá descobrir que ele desconhecia suas próprias raízes, a desconfiança só aumentou com as intrigas que o próprio vice-rei vai fomentar.

O momento da decisão: quem é o verdadeiro Moisés?
Com a morte do faraó, Ramsés assume o trono e, vaidoso e arrogante, fica incomodado com a intriga do vice-rei (que foi fofocar o que seus espiões descobriram sobre o passado de Moisés, que era tido como o salvador da profecia). O faraó perde a cabeça - ameaça Míriam (Tara Fitzgerald) e Bítia (Hiam Abbass), as criadas responsáveis por trazer Moisés ainda bebê para o palácio, e Moisés as defende - conseguindo, assim, que todos fossem expulsos para o deserto. Lá começa a trajetória errante do homem, que agora já não sabe mais o que é. A angústia de Moisés só vai embora depois que ele encontra um vila de pastores de cabras e conhece Séfora (María Valverde), que vem a ser sua esposa. Anos se passam e Moisés estavam finalmente em paz, com sua família. Até o dia em que ele se vê obrigado a ir até a montanha sagrada dos antepassados de Séfora e lá tem um encontro inexplicável com Deus. Duvidando de sua própria sanidade, Moisés passa a ter encontros mais frequentes com o menino misterioso e descobre que precisa voltar para Píton e entender melhor a profecia. Ao voltar, encontra seu povo oprimido por Ramsés e sua megalomania: o faraó sacrificava ainda mais o povo para a construção de um monumento gigantesco para sua própria exaltação. É aí que o ex-general percebe que pode ser o único a salvar seu povo, e sua primeira medida é tentar negociar com o faraó a libertação dos escravos. 

Ramsés (Edgerton) enfrentando as pragas do Egito: efeitos especiais de encher os olhos
O faraó é intransigente, e então Moisés se vê obrigado a retaliar. Usando de seus conhecimentos do exército, ele reúne alguns dos homens de seu povo e começa uma guerrilha. Acreditando estar fazendo o possível para a libertação do seu povo, tem um novo encontro com o menino-Deus, que se mostra extremamente decepcionado com ele. Ele quer o povo liberto logo, e as táticas de  Moisés surtirão efeito apenas em longo prazo. Ele então ameaça abandonar tudo e voltar para sua família, já que não está mesmo fazendo um bom trabalho. É quando o estranho garoto resolve mostrar seu poder e inflige no Egito as famosas 10 pragas, que culminam na morte dos primogênitos não protegidos pelo sangue do cordeiro - inclusive o filho do faraó. Somente depois dessa tragédia Ramsés decide expulsar todos os escravos hebreus, e Moisés, tomando isso como um sinal de acordo de libertação, os leva de volta para o outro lado do Mar Vermelho - para a prometida Canaã. Depois do enterro de seu filho, o faraó acaba por querer se vingar de Moisés e seu povo, e lidera a empreitada do exército egípcio na caçada aos 400 mil escravos que o profeta levou consigo.  O resultado é a famosa travessia do povo hebreu, com o mar sendo recuado por obra divina e o exército inimigo sendo engolido por ele.

Moisés (Bale) e seu exército protegem a retaguarda dos hebreus em fuga
Esse filme é a prova de que não existe estória tão velha que não possa ser recontada. O filme funciona muito bem como entretenimento, mesmo para quem não curte a ideia religiosa. Os efeitos especiais são capazes de prender qualquer um na poltrona e manter-nos atentos em meio à confusão das cenas de batalha, e o talento de Bale nos prende ao personagem principal quando a batalha cessa. Aliás, é mérito do ator e do diretor a recriação de um personagem tão icônico: Moisés nunca foi tão humano quanto nesse filme. Um homem descrente, um soldado, um pai de família apaixonado, um profeta que reluta em aceitar seu fardo, um líder. A produção de arte do filme é maravilhosa, assim como a maquiagem e os já citados efeitos especiais - as pragas do Egito são algo arrepiante de ver, principalmente por parecerem tão reais. A travessia do Mar Vermelho se torna ainda mais empolgante por ter uma cena de batalha no meio, que, aliás, todas são muito bacanas. Em 3D Imax, então, parecia que a gente estava dentro das bigornas, no meio da batalha. As pequenas participações especiais de John Turturro, Sir Ben Kingley e Aaron Paul são cerejas do bolo, mas não se pode dizer o mesmo de Sigourney Weaver. Uma ponta de luxo, com umas duas falas, e olhe lá!, não disse a que veio. Tal decepção só é superada por Joel Edgerton, que faz um Ramsés, no mínimo, estranho. O ator é fraco, e ao lado de um Bale inspirado, fica ainda mais evidente que ele não segurou a onda. Apesar disso, sua performance ruim não chega a comprometer o filme. A agradável surpresa fica por conta do pequeno Isaac Andrews como Deus, que é retratado de uma forma bem interessante e que ele interpreta de forma brilhante. Por tudo isso, o filme tem tudo para ser uma boa opção para o fim de ano, já que aparentemente não compromete a visão mais mística do personagem como também funciona como um bom entretenimento. Não deve entrar para o rol de filmes memoráveis do diretor, mas também não fez feio.

2 comentários:

Jefferson C. Vendrame disse...

Só pelo trailer que vi no dia que fui assistir THE HOBBIT, já imaginei a grandiosidade da produção. Estou curioso e contando os dias pra ver! Acho que será um dos grandes filmes de Scott sim!

Geisy Almeida disse...

Olá, Jefferson!

Com certeza o filme é uma boa experiência, vale o ingresso e a pipoca. Scott já fez filmes mais memoráveis, e este não fica muito atrás desses, não.

Obrigada pela visita, e volte sempre que quiser!

Feliz 2015! :)