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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Triste e forte

Essas duas palavras definem muita coisa nesse longa de Steven Spilberg. A jornada das duas irmãs, Nettie e Celie, não foi fácil. Mulheres, negras, pobres. Início do século XX, interior dos EUA, comunidade cristã fervorosa. Todos esses elementos juntos formam o inferno pessoal de Celie, e nós somos testeminhas silenciosas desse sofrimento. Narrado pela ótica da vítima, a gente sente um pouco da impotência que ela viveu.

Celie (Desreta Jackson, e depois Whoopi Goldberg) e Nettie (Akosua Busia) são irmãs. Rlas brincam em um campo de flores, como duas irmãs pré-adolescentes camponesas brincariam. Ao serem chamadas pelo pai, a surpresa. Celie está em estágio avançado de gravidez, e mesmo assim é maltratada pelo pai. Ao ter a filha, com a ajuda da irmã, logo ela é separada de sua neném. O pai a venderia para o reverendo, que não podia ter filhos. E vem aí a primeira pedrada em nós, telespectadores.

Em sua oração pra Deus, Nettie se pergunta o que será de sua filha, se teve o mesmo destino de seu outro filho. E ambos eram do mesmo pai. Seu próprio pai. A inocência da jovem é tocante, e seu conformismo nada tem a ver com covardia. Tem a ver com sobrevivência.

Sabendo que seu pai já está de olho na irmã mais nova, ela se preocupa em protegê-la. Não quer que Nettie sofra o que ela passou. Mas quando um homem demonstra interesse por Nettie, o pai a negocia em troca. Seu ciúme e possessividade sacramentaram o inferno de Celie. O senhor Johnson (Danny Glover, maravilhosamente nojento e asqueroso) aceita a negociação pois tem três filhos endiabrados em casa e nenhuma mulher para cuidar deles.

Nettie deixa um pai abusivo e cai nas mãos de um homem cruel e desdenhoso, que a trata pior que a uma empregada. Os filhos dele não são melhores, e Nettie só faz sobreviver. Um pouco de cor chega à sua vida quando sua irmã vem fugida para morar com ela, temendo o que o pai lhe faria. Mesmo que seu cunhado também a desejasse, ao menos as irmãs estariam juntas.

Nettie ensinou Celie a ler, pois planejava fugir e escrever-lhe cartas, mas os planos foram por água abaixo quando Nettie conseguiu se livrar de um estupro. Irado com a recusa da garota, Johnson a expulsa de casa, separando as irmãs. Nettie vai embora, e lhe promete escrever todos os dias. Johnson a proíbe de pegar as cartas a partir daquele dia, e então esconde dela todas as cartas que Nettie viria a enviar.

Isolada, sem ter por perto a única pessoa que a amava, Celie se resigna a apenas sobreviver. Os anos passam e Celie continua na mesma vida miserável. O marido a ignora quando lhe convém, e lhe cobra por todas coisas que ela deveria fazer melhor. Como se fosse pouca coisa. Empolgado porque sua amada viria para a cidade, uma corista chamada Shug Avery (Margaret Avery), ele pouco se importa em esconder seus sentimentos por outra que não a sua esposa. O filho mais velho acabou por engravidar uma jovem, Sophia (Oprah Winfrey, maravilhosa), que o faria de gato-e-sapato. Contrariando o pai, ele se casa com ela, mas sua vida não é fácil por um motivo: Sophia não se diminui perante um homem, nem mesmo seu marido.

A personalidade forte de Sophia contrasta com a opressão que moldou Celie. Enquanto ela fica para cuidar das duas casas, a de seu marido e a de seu enteado, Sophia vai embora com os três filhos depois que se cansa de apanhar (e bater) do marido. Johnson ainda arruma mais uma para Celie: depois de trazer Shug para casa, para viver com a mulher que realmente queria, esta tem que ver outra ficar com eu marido, tomar o lugar de dona da casa, ver Johnson (que ela descobre e chamar Albert, já que ela só o chamava de "senhor") tentar cuidar dela como nunca tentou fazer nada na vida. Apreciar o pequeno prazer de Celie ao ver o marido tentando fazer um café da manhã foi compartilhar com ela daquela alegria.

A vida ainda guardava algumas surpresas para as Celie, Sophia e Shug. As palavras "forte" e "triste" me voltam à mente, e se intercalam em diferentes significados nas vidas dessas três mulheres. É importante ver (ou rever, se for o caso) esse filme de vez em quando para perceber o qua to evoluímos - ou não - na questão da mulher. Celie passou a vida sendo tratada e se sentindo como uma coisa qualquer, indigna de ser feliz, apenas aprendendo a sobreviver. Resistência ela tinha, só faltava o incentivo certo para que se libertasse. E é lindo ver que não precisa de muito para que ela se sinta forte o suficiente para abandonar toda a tristeza que a consumia. Celie tem notícias da irmã e de seus filhos, e então ela se dá conta de que ainda está viva. E se ela resistiu a tudo aquilo, ela agora merece viver.

Se você já se emocionou com outros projetos de Spilberg sabe o que esperar. A forma como a estória se desenrola, o carinho dedicado à Celie, a força das ações que dizem muito por si próprias. A gente testemunha tudo, chora junto, vibra junto. Um filme forte e triste, que fala de esperança, de perseverança. Atuações pra lá de espetaculares e uma mensagem poderosa de que não há vergonha em sobreviver, nem que há tempo certo para se rebelar. Um filme forte que me conquistou, e foi mais um aprendizado nesse ano tão conturbado.

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