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sexta-feira, 20 de maio de 2016

O lado B da fama

Se o filme começa assim, você já sabe como termina...
Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950) é um filme espetacular em vários sentidos. A atuação de Gloria Swanson como a decadente estrela de cinema mudo que preferiu se isolar do mundo a ter que aceitar a mudança é fenomenal, e o carisma de William Holden como o talentoso porém não muito sortudo escritor de cinema Joe Gillis formam a química perfeita para os maiores personagens da trama. Se compararmos com a atual situação do cinema americano, dá para perceber o quanto o filme ainda é atual.

O endereço e o carro onde tudo começa
A era de ouro do cinema mudo acabou e agora Hollywood só tem olhos para os filmes falados, principalmente as grandes produções com algum musical. Nessa seara, Joe tenta emplacar outro roteiro e pagar suas dívidas antes que lhe tomem o carro, mas parece que todas as ideias já foram feitas. Para fugir dos homens que queriam lhe tirar seu único bem, Joe é obrigado a encostar o carro em uma mansão que parecia à muito abandonada na Sunset Boulevard. O que ele não esperava é que ali ainda vivia uma antiga estrela do cinema, Norma Desmond (Swanson), que o estava esperando. Bem, não exatamente a ele, mas ao serviço funerário que faria o enterro de seu falecido bichinho de estimação.

Problemas com auto-estima? Não, estrelas não tem problemas...
Após resolver esse pequeno engano, Joe recebe uma proposta da esnobe senhora: ele poderia trabalhar para ela e ganhar um bom salário se ele editasse seu terrível roteiro de Salomé. Ela havia, por anos, se dedicado à escrita do roteiro, e toda sua dedicação e amor ao cinema mudo estava naquela papelada. Mas aquilo já não servia para o cinema atual, e embora Joe tentasse lhe dizer isso, ela estava completamente surda aos seus apelos de realidade. Sempre seguida por Max (Eric von Stroheim, excelente), seu fiel escudeiro, ela não ouvia qualquer coisa que não quisesse. Joe, vendo que nada poderia ajudar naquele sentido, resolve aceitar a ajuda ofertada. Começa a trabalhar no roteiro e vai, aos poucos, se acomodando à condição de viver na mansão decrépita.

Joe (Holden) escolhe suportar os delírios de Norma (Swanson)
Ao perceber que Norma confundia sua gratidão pelo emprego com amor, Joe tenta romper aquela estranha conexão. Queria voltar à sua vida, à sua juventude, aos sonhos de poder conquistar seu lugar ao sol. Reencontra-se com seu amigo Artie (Jack Webb) e conhece sua noiva, Betty Schaeffer (Nancy Olson) - uma revisora que, aliás, já havia reservado duras críticas a seus roteiros. Mas ela era jovem e estava muito arrependida de sua grosseria, e quis ajudá-lo de alguma Norma. Ao reler um roteiro antigo, descobriu potencial nele. Sua proposta era refinar o texto para que, enfim, os dois pudessem ter uma verdadeira chance em Hollywood. Mas, após um telefonema, Joe descobriu que não seria assim tão fácil.

Betty (Olson) e Joe (Holden): amor proibido
Norma tentara o suicídio depois da partida de Joe, não podendo viver sem ser adorada por quem quer que a conhecesse. Vendo aquela situação, com pena da pobre mulher, ele opta por aceitar sua prisão dourada. Vive para confortá-la, para usufruir com ela dos muitos bens que possui. Seus sonhos de escrever um roteiro próprio e original foram consumidos no papel de ghost writer para Norma, que não desistia da ideia de apresentá-lo a seu diretor favorito, Cecil B. DeMile (ele próprio) - mas um novo encontro com Betty acendera a centelha da criação. Não havia como negar a atração entre eles, e as noites que passava com ela em seu pequeno escritório, criando coisas novas para o roteiro, eram o respiro de alívio para Joe. Seria ele capaz de trair seu amigo Artie? E à sua benfeitora? Que futuro ele poderia prometer à bela Betty?

Norma (Swanson): a fotografia realça a loucura da personagem
Fotografia primorosa (alguns efeitos me pareceram avançados pra época; fico me perguntando como a plateia recebeu aquela tomada "debaixo d'água"), produção de arte luxuosa, trama envolvente, ritmo ágil e atuações magníficas emolduram essa obra-prima do cinema. O final, trágico e emocionante, nos leva a refletir a que ponto o ser humano é capaz de ir quando se trata de seguir os seus sonhos. Tentar nos enganar para viver de sonhos - desses que nunca alcançaremos ou daqueles que já nos escaparam das mãos, e do que seríamos capazes para consegui-los (seja para o bem, ou para o mal). A fragilidade humana sob os holofotes, a efemeridade do sucesso, os percalços da fama. Um filme eterno, atual, essencial na lista de qualquer cinéfilo.

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