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sexta-feira, 13 de maio de 2016

Um mocinho fora-da-lei

Os passageiros da diligência: cruzar o deserto era o menor dos problemas
John Wayne é uma figura lendária no cinema americano, e não por menos: foram inúmeros filmes em que ele atuou como o herói americano, o cara certo que faz a coisa certa e salva o dia.  Mas em No tempo das diligências (Stagecoach, 1939) ele não é o mocinho típico: a começar, seu personagem está sendo procurado pela polícia por estar fazendo justiça com as próprias mãos. Sim, senhoras e senhores, John Wayne é um justiceiro neste filme. Mas vamos com calma. Comecemos pelo início.

Ringo Kid (Wayne):  justiceiro e  cavalheiro
Em uma cidadezinha perdida no interior dos Estados Unidos, vemos o preconceito agir com vontade (e maldade): uma jovem senhorita está sendo expulsa da cidade pela "patrulha da moral", e junto dela, um médico. Dallas (Claire Trevor) e Doc Boone (Thomas Mitchell) tem suas razões para estarem vivendo a vida que levam: ela é moça pobre, e como não tinha ninguém para apoiá-la, foi viver da única maneira que conseguia - o que não lhe dava nenhum orgulho; ele, atormentado por seu passado, preferia embebedar-se até esquecer de si próprio - era mais fácil viver assim. Mas, quem são eles para conseguir o perdão e a ajuda da sociedade, não é? Pois bem. Expulsos, seguiriam viagem com a diligência do delegado Curly Wilcox (George Bancroft), que ainda levaria mais alguns passageiros. Lucy Mallory (Louise Platt), uma jovem arrogante e rica, que buscava encontrar-se com seu marido na cidade vizinha; Samuel Peacock (Donald Meek), o vendedor de uísque que encontrou no médico um "prestativo" ajudante; Sr. Hatfield (John Carradine), um galante cavalheiro que, por acaso, estava fascinado pela bela Lucy e ofereceu-se a acompanhá-la na viagem - vai que a moça fica com má fama por causa da companhia...; e Henry Gatewood (Berton Churchill), um banqueiro muito suspeito que carregava uma maleta e tinha muita pressa para sair daquela cidade. 
Já imaginou a dificuldade que foi filmar nesse lugar?
Antes de partir, o delegado recebe uma mensagem urgente do exército: a diligência deveria levar a mensagem até Lordsburg, o destino final da viagem, o mais depressa possível. Eles teriam escolta por um trecho, mas o resto do caminho seria por conta deles. Os índios estavam bastante agitados e mutos eram os ataques às diligências, e todos os passageiros sabia o que significava viajar naquelas condições. Mas, por um motivo ou outro, todos deveriam seguir em frente. No meio do caminho, Ringo Kid (Wayne) encontra uma vaga na diligência para seguir até o fim da viagem. Lá, segundo teve notícias, estavam os responsáveis pela morte de seu pai e irmão. Mesmo contra a vontade do delegado, este resolve ajudá-lo - afinal, fora um grande amigo do pai de Ringo. Com o passar do tempo, as coisas vão ficando cada vez piores.

E ainda tem espaço pra um romance!
Ao pedirem abrigo em uma estalagem, o preconceito fica cada vez mais evidente: o banqueiro, a aristocrata e o cavalheiro se recusam a tomar lugar próximos à prostituta e o bêbado. Contrariando as regras da sociedade, o justiceiro se recusa a tratar a jovem como uma degenerada e sempre lhe é cortês - e exige cortesia dos outros também. Do médico bêbado, confiava na competência dele como nenhum outro homem naquela diligência - nem ele próprio. A viagem ficou ainda mais difícil depois que foi preciso uma pausa de emergência: Lucy entrou em trabalho de parto em uma estalagem e foi obrigada a engolir seu preconceito com a senhorita Dallas e a mulher do estalajadeiro (que era apache) para que pudesse sobreviver. Enquanto os homens pensavam uma estratégia, mais um revés: a tribo roubou os cavalos de reserva da diligência e logo eles não tinham mais escolha. Precisavam sair dali ou seriam chacinados. Ao fugirem, um ataque indígena quase os matou - o grande guerreiro Gerônimo e seu grupo apache os atacou, mas os homens conseguiram impedir o pior. Ao finalmente chegarem em seu destino final, todos tem o seu o acerto de contas - em especial, o encontro entre Kid e os irmãos assassinos prometia parar a cidade.

Ringo (Wayne) e Dallas (Trevor): fotografia impecável
A cena de perseguição da diligência é tão espetacular que, mesmo tantos anos depois, empolga a gente que está sentado tranquilo no sofá. Tem muito diretor que precisa dar uma relembrada nesse clássico para aprender que nem só de explosões se faz uma boa cena de ação: a edição das imagens, a velocidade com que os participantes estão fugindo e perseguindo, a tensão da situação desfavorável (chega uma hora em que a gente acredita que não vai mesmo sair ninguém vivo dali)... Um trabalho de gênio de John Ford. Sem dúvidas, esse filme é inspirador: tanto que Orson Wells e Akira Kurosawa disseram ter se inspirado nele para criar suas obras-primas. Além disso, a questão social fortemente presente no roteiro é um deleite. O preconceito escancarado e fortemente rebatido com gentileza é um tapa na cara da sociedade (inclusive a atual, que anda muito nervosa ultimamente), um heroi com uma história pessoal trágica e violenta que consegue ser uma pessoa melhor que um bando de cavalheiros... É de tirar o chapéu! A fotografia incrível nos presenteia com algumas cenas lindíssimas, como a sequência da noite na estalagem e o primeiro "encontro" entre Ringo e Dallas, e toda a passagem por Lordsburg. Uma boa pipoca para aquela tarde preguiçosa, e mais um clássico que eu me surpreendi ao ver.

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