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terça-feira, 8 de agosto de 2017

O estranho que nós amamos




Há algumas considerações a se fazer antes de iniciarmos a conversa sobre esse longa. O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017) é um remake de uma estória adaptada para o cinema: ou seja, é uma atualização da estória sob o viés decididamente feminista da diretora (e ativista) Sofia Coppola. Em linhas gerais, temos a Guerra Civil americana como pano de fundo para a trama de um soldado ferido que encontra refúgio em uma escola para moças. Mas o filme é mais do que apenas isso.

Quando a jovem Amy (Oona Laurence) encontra o Cabo John McBurney (Colin Farrel) ferido, seu bom coração e a boa educação que recebera no internato da Sra. Martha Farnsworth (Nicole Kidman), não pensa duas vezes antes de levá-lo para a mansão. Escondida em meio à mata, cercada pela guerra - porém sem ser diretamente atingida por ela - a casa resiste para dar suporte àquelas que não tem para onde ir. Ao chegar com mais uma pessoa para dividir teto, cuidados e alimento, a garota jamais imaginaria o que viria acontecer depois.

Martha (Kidman) e o cabo McBurney (Farrel): relação tensa desde o início
Martha, pressionada pelas boas maneiras e pela moral de sua religião, aceita cuidar do inimigo mesmo sabendo que ele pode trazer muitos problemas - especialmente com o exército, que volta e meia rondava sua propriedade. Decidida a dar um bom exemplo cristão, parte para a praticidade: com a ajuda da outra adulta da casa, a professora Edwina (Kirsten Dunst), cuida do ferimento do homem e o mantém separado das outras garotas. Sua esperança era de que, assim que estivesse curado, ele fosse embora e a vida voltasse à normalidade.

Mas a rotina do internato, especialmente em tempos de guerra, não era das mais agradáveis. A mera presença de um homem na casa abala as mulheres ali dentro, por muitos motivos. A solidão das mulheres mais maduras e a ânsia de descobrir o amor da joven Alicia (Elle Fanning), a inocência de Amy e Marie (Addison Riecke), a irritação de Jane (Angourie Rice) por não poder praticar sua música - tudo é afetado pelo cabo, que consegue criar uma relação com cada uma delas.

Edwina (Dunst): um belo pássaro engaiolado
Aos poucos, conforme o tempo passa e ele demonstra melhora, as interações aumentam. Se antes apenas sua pequena amiga Amy lhe parecia amigável, agora ele já era convidado a jantar e fazer orações. Conforme a intimidade aumenta, a tensão também cresce e John começa a se preocupar com o que será de sua vida fora daquelas paredes acolhedoras. Lá fora, somente o que lhe espera é a guerra, e as duras leis que terá que enfrentar por sua deserção. E é aí que o filme surpreende.

Até então, o espectador mais desatento poderia esperar um romance vitoriano tradicional, com as tensões se dissolvendo até que os amantes se unissem em felicidade plena pela eternidade; porém esse não é um conto de amor. O estranho que nós amamos mostra o quão destruidor pode ser uma relação desigual, independente de quem esteja envolvido. A forte crítica ao machismo do cabo John (que eu não explicarei propositalmente, para não virar um spoiler - mas que muita gente já pode imaginar o que seja) fica evidente na mudança de comportamento delas. A lição que parece ser dada a nós é "todas as mulheres são afetadas". Há um contexto sexual forte e óbvio, mas até as mais inocentes sofrem com as consequências.

As meninas se enfeitam para um jantar na companhia do cabo John
O fato de estarem insatisfeitas em um quase-mundo-paralelo não seria tão ruim quanto foi ao abrirem as portas para um desconhecido. Um homem sozinho conseguiu desestabilizar as vidas de todas elas em pouco tempo. E o que será delas depois que tudo acabar? O argumento é como um tapa na cara, para alertar homens e mulheres das pequenas violências cotidianas. Muitos daqueles comportamentos ainda estão refletidos nos dias de hoje - e olhe que estamos falando de uma estória passada durante o século XIX! É necessário empatia para acabar com as diferenças - e esse é, a meu ver, a falha do longa.

Particularmente, senti um certo distanciamento da diretora com as personagens. Ela as retrata, porém não "interage" ou "reage" com elas. A produção, impecável em todos os sentidos (figurino, maquiagem, produção de arte, fotografia, trilha sonora), soa fria e distante. Pode ter sido um recurso intencional - incrivelmente inteligente - de retratar exatamente essa ideia de "bolha" em que as mulheres viviam, mas me incomodou o fato de eu não me apegar a nenhuma das mulheres mesmo que tenha rolado uma identificação. Afinal, quem nunca se sentiu preso às obrigações e deveres? Quem nunca teve sonhos frustrados? Quem nunca teve medo do futuro? Exatamente por isso fiquei um tanto decepcionada por não ter me apegado a nenhuma delas.

Nicole Kidman como Sra. Martha: bom trabalho, embora fosse mais interessante alguém mais austera

O elenco extremamente reduzido - basicamente, só estão em cena os oito atores principais - é bastante exigido: é como se houvesse uma lupa em cima de cada um dos personagens, e qualquer deslize seria fatal. Para tanto, tiro o meu chapéu para eles. Até mesmo as mais jovens e menos conhecidas atrizes estão impecáveis em seus papeis. Minha única ressalva, talvez, tenha sido a escolha de Nicole Kidman para a dona do internato: creio até que ela fez um belíssimo trabalho, mas a personagem que interpreta, se fosse dada à uma atriz que aparentasse mais idade e mais austeridade, seria ainda mais interessante. 

Contudo, minhas ressalvas são muito particulares - apenas detalhes que não devem atrapalhar nem a experiência do longa nem o debate que ele deve (e merece) trazer à tona. Por tudo isso, O estranho que nós amamos é um filme que merece ser visto e avaliado, pensado e estudado. Um filme que, com certeza, vai render muito papo com os amigos depois da sessão. Obrigada, Sofia.

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