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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Kingsman - O Círculo Dourado

Precisei de uma pausa para apreciar a genialidade desse filme: muito além do puro entretenimento de filmes de ação, Kingsman – O Círculo Dourado (Kingsman – The Golden Circle, 2017) é a sequência de Kingsman – O Serviço Secreto, sucesso de 2014, e consegue ser ainda mais interessante que seu antecessor.  As críticas ao comportamento social e ao próprio gênero de filme de ação/espião estão ainda mais ácidas e divertidas, e as mais de 2h de filme passam sem que o espectador se canse – e ainda termine querendo mais.


Um aviso: como o roteiro segue com as consequências diretas dos acontecimentos do primeiro longa, essa resenha pode conter alguns spoilers (mas acho difícil encontrar alguma outra que seja 100% spoiler free). Prometo fazer o possível para não entregar demais.

Depois de salvar o mundo da destruição pelo plano maligno de Valentine (Samuel L. Jackson), Egsy (Taron Egerton) assumiu o posto de Galahad - que era de Harry (Colin Firth) - na Kingsman e segue a rotina de um espião da agência. O que ele não esperava era ser atacado por um ex-recruta, Charlie (Edward Holcroft). Ele acreditava que o rapaz tinha morrido na festa de Valentine, mas ele estava muito vivo – e com um braço mecânico, ainda por cima! Depois de uma alucinante luta para salvar a própria pele dentro de um táxi, Egsy consegue escapar e ainda chegar a um local seguro no Hyde Park. O que ninguém esperava é que o braço mecânico perdido no carro fosse capaz de hackear o sistema da Kingsman. Um desastre está para acontecer: com base nos endereços encontrados ali, todas as casas de todos os agentes da Kingsman, inclusive a sede, são destruídos por mísseis teleguiados.

Egsy (Egerton): o que fazer agora?
Egsy se salva por simplesmente não estar em casa no momento do acidente, mas nenhum outro agente escapa – nem mesmo Arthur (Michael Gambon, substituindo Michael Caine no cargo) e Roxy (Sofie Cookson), a Lancelot. Arrasado, Egsy encontra ajuda no único outro sobrevivente do massacre: Merlin (Mark Strong, excelente). Juntos, eles precisam por em ação o protocolo final. A ajuda vem do jeito que eles menos esperavam: uma agência irmã, nos Estados Unidos, seria a última saída. O contato, porém, não foi muito amigável a princípio.

A Statesman é a agência de inteligência secreta americana, e se esconde sob a fachada de uma destilaria. Passada a desconfiança inicial (que inclui uma surreal e divertida sequência de “reconhecimento” à americana, do tipo “atire primeiro, pergunte depois”), ambas agências passam a trabalhar juntas com a pouca informação que Roxy conseguiu buscar: o palpite da falecida agente era de que o Círculo Dourado, uma organização de tráfico de drogas, estaria de alguma forma envolvida com o estado atual de Charlie – e, consequentemente, com o desastre que veio acontecer depois. Logo a suspeita se comprova acertada.

Os agentes da Statesman tem os melhores codinomes!
Poppy (Juliane Moore, deliciosamente macabra) se revela como a chefe da organização de um jeito bastante inusitado: num anúncio na TV, ela avisa à população que contaminou suas drogas propositalmente com um vírus e o único antídoto está sob sua guarda. O que ela espera em troca da cura é que o presidente dos Estados Unidos descriminalize o uso de narcóticos. Assim que o decreto estiver assinado, ela liberaria o antídoto para todos os países atingidos (o que seria praticamente o mundo todo). Mais uma vez cabe a Egsy agir para salvar o mundo de um maluco megalomaníaco, e dessa vez ele tem motivos mais pessoais ainda para parar Poppy.

Poppy (Moore): quem vê cara...
Como prometido, tentei segurar as melhores partes para deixar surpresas para quem for ao cinema - quanto ao personagem de Colin Firth, os posteres entregam um pouquinho do que acontece porém não vou estragar a forma como ele surge na trama. O roteiro é um primor: não há “barrigas” ou excessos, alternância de ritmo com cenas de ação e pura emoção, toneladas de sarcasmo para todos os lados (do american way of life ao cavalheirismo inglês, passando pelas relações amorosas nos dias atuais e clichês dos gêneros cinematográficos, não há perdão para ninguém) e nenhuma ponta solta. São várias as cenas memoráveis, principalmente as que têm participação especial de Elton John (essa nem foi spoiler, porque o nome dele está no cartaz!) e as que se passam na Casa Branca. Aqui vale uma dica: esteja atento ao noticiário internacional e conseguirá entender as piadas internas mais escrachadas e bem executadas que eu já vi na vida. Um adendo: Pedro Pascal (o eterno Oberyn, de Game of Thrones) faz uma participação muito maior do que eu esperava - e é hilário ver como um não-americano absorve e se orgulha das "americanices".

Agente Whisky (Pascal): representando o american pride (!)
Há também algumas coisas um tanto questionáveis, como a sequência na tenda do show no Festival de Glastonbury, por exemplo. Mas se lembrarmos que esse é um filme que tira sarro das coisas justamente exagerando e carregando nas tintas, percebemos que o grotesco ali foi usado para incomodar mesmo – para nos fazer se perguntar “nossa, mas era mesmo necessário?” não só ali, naquele momento, mas em todos os outros em que aparecem em outros filmes. Simplesmente genial.

Se você não acha que um lança-míssil disfarçado em maleta de grife é um exemplo da sátira descarada, então precisa rever seus conceitos
A sessão a que assistimos foi em 3D, porém acredito que não tenha sido necessário. Quem já viu o primeiro longa, sabe que a ação alucinante é uma marca registrada da franquia e não precisa de efeito nenhum além do que já está em cena. A franquia, aliás, que promete ser expandida – e o público agradece. Pessoalmente eu não conheço os quadrinhos que inspiraram essa maravilha cinematográfica, mas acredito que o diretor Matthew Vaughn tenha feito um bom trabalho ao traduzir novamente os quadrinhos para a telona. Vaughn também merece créditos por conseguir entregar um trabalho tão denso com tanto bom humor; um produto que vai além do entretenimento por si só – e que tampouco falha em ser só entretenimento. Aproveitando o tom do filme, me arrisco a um trocadilho super clichê: um tiro certeiro, em todos os alvos. 

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