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Tudo Que Quero

Tudo que quero (Please stand by, 2017) é um filme que surpreende por tratar de forma delicada e até bem-humorada um tema delicado: até que ponto as pessoas que estão em um espectro do autismo são consideradas aptas para viver independentes? E é pelo olhar de um deles que o público é levado a pensar: pensar que eles tem tanta consciência quanto nós de suas responsabilidades, perigos e possibilidades é algo raro no cinema, uma vez que os pacientes tem uma representação bastante estereotipada no cinema.


Wendy Welcott (Dakota Fanning) é uma jovem que está internada em uma clínica por conta do seu difícil relacionamento com a irmã mais velha, Audrey (Alice Eve, de Star Trek - Além da Escuridão). Suas crises de raiva tornaram-se um empecilho para a convivência quando Ruby, a filha de Audrey, nasceu. Wendy, porém, mostra avanços extraordinários - e a próxima visita da irmã pode significar uma volta para casa. Apreensiva, ela tem consciência que pode voltar a se tornar um problema - e quer provar para todos que tem condições de se controlar.

Scottie (Collette) e Wendy (Fanning): rotina precisa para aumentar a independência da jovem
Uma oportunidade importante surge no horizonte de Wendy: fascinada por Star Trek, ela decide participar de uma competição para fãs. Todos deveriam enviar um roteiro de filme para avaliação, e o vencedor receberia um prêmio de 100 mil dólares. Obstinada, a jovem acredita que pode vencer o concurso e aposta suas fichas em seu talento - mesmo quando ninguém parece querer acreditar nela mesma. Assim, ela não vai medir esforços até conseguir entregar seu roteiro.

Algumas sequências divertidas acontecem no trabalho (nem tão legal assim) de Wendy
Conforme a trama se desenrola, percebemos que Wendy é mais desenvolta do que se poderia esperar de uma jovem com sua condição. Mais do que isso, o que poderia ser um obstáculo para ela, torna-se a peça fundamental para sua sobrevivência: a concentração e a facilidade de absorver e reter informações sobre seu objeto de interesse (no caso, a série Star Trek) a faz conhecer os personagens como ninguém. Há uma interessante comparação entre a jovem e o capitão Spock: cada um à sua maneira, eles tem dificuldades em processar emoções - porém encontram um jeito de compreendê-las e, por fim, expressá-las.

A imaginação de Wendy é povoada por Star Trek: homenagem à saga é divertida e emocionante
Uma das maiores sacadas do filme, porém, se perdeu na tradução. O título em inglês, "please, stand by", a frase que a psicóloga Scottie (Toni Collette, em excelente trabalho) usa para acalmar Wendy, domando sua ansiedade e descontrole. Sua tradução é "por favor, acalme-se", o que ficaria estranho como um título de filme - e justifica a mudança para outra expressão. Mas ao mudar para "tudo o que quero", insinuando um forte desejo de Wendy, ele não tem o mesmo efeito inconsciente de uma "pequena transgressão" que ela fará ao sair de sua zona de conforto e ir atrás do que deseja. E esse é exatamente o ponto central deste delicioso drama.

Wendy e o fofíssimo chiuaua Pete: seguindo em frente
É interessante notar o comportamento das três personagens principais quando tem que enfrentar essa mudança. Audrey, a irmã mais velha, fica responsável pela irmã mais nova com autismo desde que a mãe de ambas faleceu; tenta priorizar o que seria melhor para todos, e tem o comportamento que a maioria teria em uma situação parecida. Scottie se dedica tanto aos seus pacientes, que precisam tanto de sua atenção e cuidados, que acaba deixando o próprio filho mais livre. Não é que ela seja negligente, mas ela acredita que o filho pode ser independente - mas, como todo filho adolescente, ele ainda precisa da atenção da mãe. Wendy é paradoxalmente a mais frágil e a mais forte delas, pois conhece suas limitações, reconhece suas dificuldades e, ainda assim, tem consciência de seus atos (mesmo que sua avaliação das consequências seja bastante prejudicada).

Quando Wendy precisa da ajuda de um policial, é a paixão por Star Trek que permite a comunicação entre eles
O roteiro de Michael Golamco é uma ampliação do curta que ele mesmo escreveu, e onde pôde incluir novas nuances e perspectivas para a história de Wendy. Uma personagem cativante como ela precisa mesmo de um olhar mais atento, algo que vá além de sua condição de autista. Há espaço para humor, referências apaixonadas de Star Trek, compaixão e reflexão enquanto acompanhamos a jovem lutar pelos seus sonhos - como qualquer outra protagonista que não tivesse o mesmo diagnóstico psicológico que ela. E esse é o grande acerto desse filme: Wendy nunca é retratada como uma coitada, mas como uma jovem cheia de energia e esperança; que sofre como qualquer outra pessoa, porém é capaz de reagir e correr atrás do que quer.

"Só existe uma direção lógica para seguir: em frente"
A direção de Ben Lewin é suave, deixando que as personagens falem com suas próprias vozes através da ótima interpretação de seu elenco. A escolha por uma fotografia clara e natural, a opção pelo uso de cores vibrantes no figurino e nos detalhes da  produção de arte, refletem o espírito da estória: mostrar que os desafios são os mesmos para todos e basta coragem para mudar seu destino. Uma sessão agradável para a família, que traz alguns bons assuntos para a mesa (como preconceito, honestidade, família, perseverança) e uma ótima pedida para quem adora se encantar com estórias de sonhadores.

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