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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Bastidores de Metrópolis

Nós convidamos e ele topou. Acompanhe as impressões de nosso leitor/resenhista convidado Daniel Caetano, sobre Metrópolis. Participe mande opiniões você também!


Ao assistir Metrópolis pela primeira vez, tive a clara impressão de se tratar de uma produção que, para sua época, teve proporções similares às de Titanic no cinema moderno. Os cenários são grandiosos para a época, os efeitos especiais, executados direto na película, são bastante bem feitos - deixando com vergonha muitos filmes bem mais recentes. O número de atores é imenso, a atuação deles é esplendorosa para o tipo de mídia e a música "casa" perfeitamente com o filme. O que mais me chamou a atenção, entretanto, foi a ambientação e o enredo, que enfocam aspectos muito relevantes sobre a sociedade humana.

A ambientação é uma mistura curiosa de avanços e anacronismos. Na mesma cena em que aparecem enormes construções, aviões, viadutos inimagináveis para a época... aparecem também carros da década de 1920. O autor imaginou um 2026 como uma extrapolação da vida pós-revolução industrial. É nessa primeira camada do enredo que é apresentada a divisão de classes, entre os operários e a categoria dominante, representada pelo todo poderoso Joh, que gerenciatudo que ocorre a partir de sua sala na torre Babel, e seus "filhos", que aproveitam a vida no Clube dos Filhos. (O filme é repleto de referências religiosas. No caso, "Club of the Sons" pode ser simplesmente uma referência aos "escolhidos", os "filhos de Deus".)

Neste panorama, a ambientação apresenta a tecnologia como um elemento que tem apenas o propósito de servir aos homens da classe dominante, usualmente envolvendo algum tipo de exploração da classe trabalhadora. O filme todo apresenta relógios de 24 horas e de 10 horas, indicando que o dia ainda tem 24 horas em 2026 - ou seja, não semudaram as convenções), mas próximo aos trabalhadores há, muitas vezes, apenas relógios de 10 horas: as 10 horas do turno de trabalho¹, uma situação que o autor imaginou que não fosse mudar pelos próximos 100 anos!

Apesar do foco na questão da exploração do trabalho, o filme não se limita à superfície do problema, aprofunda-se nas razões que levam a essa situação: a falta de comunicação entre as pessoas, sejam elas da mesma classe social ou entre as classes sociais. Esse ponto é reforçado diversas vezes, a começar pela escolha da Babel como o centro de coordenação da organização social vigente e tornando o ponto explícito com a afirmação de que "Todos falavam amesma língua mas ninguém se entendia". Em alguns casos, percebe-se até a dificuldade que algumas pessoas da classe trabalhadora tinham para falar com Joh - e muitas são repreendidas por ele por conta disso. Mesmo o filho de Joh, Freder, tenta se comunicar com o pai, mas este nunca lhe dá uma resposta, apenas lhe olha tristonho. Os únicos que se manifestam mais abertamente para Joh são o líder dos operários e o cientista, Dr. Rotwang, que, curiosamente, representariam uma espécie de "classe média" dentro do contexto filme.

O próprio filme entra mais a fundo e apresenta o motivo da falta de diálogo: a falta de amor, no sentido genérico que nós damos à palavra nos tempos atuais, expressado pela frase que o mediador entre as mãos e a cabeça deve ser o coração (em outras palavras: O elo entre os que pensam a sociedade e os que fazem a sociedade tem que ser o sentimento, o amor pela sociedade). Isso tem duplo sentido: nossas ações devem ser reflexos de nossas razões balizadas pelas nossas emoções... caso contrário, temos um mundo extremamente utilitarista, onde nada tem muito propósito aparente, além de manter o status-quo.

Neste sentido, o filme tem uma roupagem de tragédia grega: nada do que as pessoas fazem tem um grande propósito; ninguém quer salvar o mundo e ninguém quer o bem estar do universo. Todos os personagens tem propósitos bastante limitados: Joh quer manter o status-quo, preocupando-se com o fato de que aparentemente há trabalhadores pensando - fazendo planos; Freder deseja conquistar Maria; Maria tenta manter os trabalhadores unidos até que o portador da mudança venha; a robô Hel tem o propósito de causar a rebelião; os trabalhadores têm o propósito de trabalhar e, em certo nível, Rotwang tem o propósito de se vingar... mas nenhum deles pensa muito além disso, ou seja, o que vai acontecer depois... ou seja, não sabem muito bem qual é o objetivo por trás do que fazem.

Os trabalhadores praticamente nem são retratados fora de seu horário de trabalho², a não ser quando aparecem com Maria, que, aparentemente, cuida dos trabalhadores e das crianças. Freder faz coisas o tempo todo, mas aparentemente sem nexo, como se acreditasse que uma força superior o guiasse. A robô Hel age histericamente,seguindo com seu aparente propósito de causar a discórdia nos operários, mas ela não faz apenas isso: acaba causando discórdia por todo lugar que passa... o próprio cientista, sabendo o caos e as consequências do que Joh lhe pede, as faz assim mesmo, no que chega mais perto de um propósito maior no filme, a já comentada vingança. Nem mesmo Joh, já que ele estimula uma rebelião e, quando ela acontece, ele não sabe o que fazer com ela. Embora, contraditoriamente, ele tenha estimulado uma rebelião pelo medo de uma rebelião futura.

Essa "insanidade" vem do fato que está tudo separado no filme: o pensamento, a ação e o sentimento estão espalhado nos vários personagens do filme; os trabalhadores precisam de alguém que lhes diga o que fazer, e os da classe dominante precisam de alguém que lhes faça as coisas. Entretanto, todos eles perderam a capacidade de sentir, de amar, de se importar: tanto que se tornam incapazes de diferenciar entre uma pessoa de verdade e um robô, algo que para os expectadores é muito fácil (devido à ótima atuação de Brigitte Helm... Helm, Hel... hm!)! Excluindo-se a própria Maria e Freder, nenhum outro personagem parece distinguir a robô Hel de Maria - nem mesmo o Dr. Rotwang, que a criou, consegue diferenciá-las, e isso fica claro no momento em que Maria se pendura no sino e Rotwang tem a aparente certeza de que se trata de Hel.

Considerando a aparência de tragédia grega que o filme traz, alguns dos personagens parecem traduzir a tríade de sentimentos descrita pelos gregos: ágape, filia e eros. Freder encarna o ágape, o sentimento de entrega completa pelos outros, inquestionável e eterno. Um ponto onde isso fica mais evidente é o momento em que ele substitui 11811, um trabalhador que sequer nome tem, em seu trabalho aparentemente sem sentido, apenas para livrá-lo de seu sofrimento. A busca dele por Maria também é um indício deste caminho.

Maria encarna a filia, que é o sentimento próximo da amizade, comum entre pais e filhos e entre irmãos, apreocupação, o cuidar. Isso fica evidente em diversas passagens, desde a primeira vez em que ela aparece, quando ela diz para Freder, sobre as crianças que estão sobre os cuidados dela: "Estes são seus irmãos". Também aparece no momento em que ela cuida dos operários, dizendo para que eles tenham calma, que esperem pela vinda do intermediador.
A robô Hel, por sua vez, encarna o eros, o apreço pelos sentidos carnais e mundanos. Os pontos onde isso é bastante enfatizado é na um tanto despropositada cena em que ela aparece como dançarina erótica, seduzindo a todos, e também quando semeia a discórdia entre os operários, usando para isso de um apelo a aspectos materiais.

Talvez não por acaso a robô Hel (que tinha a imagem de Maria, fora baseada na verdadeira Hel, que havia causado a discórdia entre Rotwang e Joh, e que era mãe de Freder. Uma interpretação possível para a verdadeira Hel é que ela fosse o elo, o coração entre os que pensam e os que agem. Com sua morte, tudo transformou-se em caos; a caoticidade da situação indica o que ocorre quando estes elementos - ação, razão e emoção - todos não andam juntos. Um indivíduo completo e coerente precisa unir todos estes elementos.

O enredo tem ainda uma terceira camada, citando os aspectos religiosos. Desde o próprio nome Babel, passando pelonome do "senhor de tudo", Joh, que perde tudo ao longo do filme, seja no nome de Maria, quando ela faz a posição do sagrado coração de Jesus e, em especial, no momento em que dizem que todo o tipo de pecado ocorre sob seus pés, ainda que nesse caso estejam se referindo, na verdade, à robô Hel. Aliás, o personagem que causa a discórdia é Hel, seja a pessoa, seja o robô, um nome que lembra bastante o termo "inferno" (Hölle, em alemão, e Hell em inglês), relação relativamente reforçada pelo pentagrama invertido sobre a cabeça da robô, em sua primeira aparição e quando lhe é dada a "vida".
Nesta terceira camada, há ainda a preocupação com os lobos (robô Hel) em pele de cordeiro (aparência de Maria)³ e com as desastrosas consequências de se deixar seduzir pelos encantos e possibilidades, algo que aconteceu tanto pelo lado de Joh quanto pelo lado dos trabalhadores. Há, neste caso, uma referência às muitas obras que representam a Revolução Francesa com uma mulher à frente (como a que ilustra o post, La liberté guidant le peuple de Eugène Delacroix): na versão de Lang da "queda da bastilha" de Metrópolis, Hel lidera os operários ao som de acordes da Marselhesa.
Metrópolis é um filme extremamente rico e que, apesar de todas as restrições que a época impunha, impressionabastante, em especial pela atualidade (!) de todos os temas que trata. Um ótimo filme, obrigatório para todos os cinéfilos de plantão.

¹Apesar de a OIT ter indicado jornadas de trabalho de 8 horas diárias já em 1919, isso foi implementado apenas para uma pequena minoria dos trabalhadores. Apenas a partir da crise de 1929 foi que a jornada semanal de 44 ou 40 horas e 8 horas de trabalho diários passou a ser uma realidade para a maioria dos assalariados.
²Só as horas de trabalho deles importa, talvez esse seja o simbolismo por trás do relógio de 10 horas para eles. É importante notar que um único relógio de 12 horas aparece no filme: o de Joh.
³Em alemão, Hell também significa brilho, pureza, dentre outros... acaba dando uma ambiguidade ao nome.

1 comentários:

Giselle de Almeida disse...

Essa questão do relógio dos trabalhadores é uma sacada genial, e muito emblemática. Adoro a cena em que o filho do Fredersen diz algo do tipo: "Esse turno não vai acabar nunca?". Ali ele começa a sentir na pele o que é a vida dos seus recém-descobertos "irmãos"...