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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Viver a vida... dos outros

É difícil imaginar uma situação como essa hoje em dia, pensei, ao rever Janela indiscreta, com todas as janelas cheias de grades e todo mundo trancafiado dentro de casa. Acontece que, mesmo sem bisbilhotar, só de passar pelo meu quarto, sei quando a vizinha está jogando paciência no computador, e provavelmente ela sabe quando eu estou passando roupa. O fato é que, se algo estiver ao alcance dos nossos olhos, acabamos não resistindo. A curiosidade é uma característica humana, não tem jeito.

E o filme de Hitchcock, além de provar isso, discute de forma magistral as consequências disso. Até que ponto podemos interferir na intimidade das pessoas? Fotos de artistas sendo "flagrados" com seus supostos namorados, com seus filhos recém-nascidos ou até mesmo fazendo coisas banais são a matéria-prima de qualquer revista de celebridades. E antes de atirarem a primeira pedra, lembrem-se de que isso só acontece porque muita gente compra e lê esse material. Se existe algum culpado, somos todos nós.

Mas além do interesse pela vida alheia, nós somos espectadores o tempo todo. Você já deve ter lido algum artigo comparando o personagem de James Stewart a nós mesmos, na sala de cinema. Isso porque, além de curiosos, nós somos viciados em histórias. Mas, desta vez, me veio uma imagem à cabeça: a situação do fotógrafo, que não pode sair de casa por motivos de saúde, e se distrai acompanhando a vida dos outros é mais parecido com quem assiste à TV. Cada janela de um vizinho representa uma atração de um canal diferente, e, conforme ele vai passeando o olhar pelo prédio em frente, é como se estivesse zapeando à procura de algo que lhe agrade. 

Jeff é um profissional que está acostumado a viajar pelo mundo, vivendo grandes emoções, seja no meio de uma guerra ou no safári africano, é ele quem vai atrás das histórias. Quando se acidenta e fica impossibilitado de fazer isso, sua única solução é viver a vida através dos outros. E aí ele coloca apelidos nos vizinhos, como a Sra. Coração Solitário e a Senhorita Torso, conhece a rotina deles, acompanha os acontecimentos em suas vidas... Eles são tão interessantes porque possuem a liberdade que lhe foi tirada. Por outro lado, Lisa (Grace Kelly, deslumbrante), sua noiva chique e refinada, entrega-se à curiosidade e à imaginação com tanto ou mais afinco, assim como a prática Stella (Thelma Ritter, divertidíssima). Basta um empurrãozinho, que todo mundo entra no jogo.

Bom, como eu já falei de tanta coisa externa ao filme, queria só fazer uma homenagem a Hitchcock, que nos brinda com uma sequência maravilhosa, quando Lisa vai até a casa de Thorwald, o suspeito de ter matado a mulher. A tensão só vai aumentando até a parte em que Jeff se dá conta de que está sozinho, e o assassino vai em sua direção. E é tudo feito de maneira tão simples... Bastou uma atuação eficiente do elenco e uma edição precisa. Brilhante. Coisa que tem muito cineasta hoje em dia que pensa que é, mas não chega aos pés do mestre.

2 comentários:

Daniel Caetano disse...

Rá! Essa cena é realmente brilhante!
Como diria o pai de um amigo meu, "é eletrizante!" :)

Geisy Almeida disse...

Uma das minhas favoritas. Concordo quando você diz que muitos cineastas hoje em dia acham que estão fazendo a mesma coisa, mas não estão. Susto gratuito, trilha sonora irritante e denunciadora e sangue a rodo não são sinônimo sequencia "eletrizante" - ainda mais se estiverem todos juntos.

Ah - sim, eu também uso "eletrizante" no meu vocabulário rs