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sábado, 3 de setembro de 2011

O mundo dá voltas

Almodóvar tinge com tintas fortes o desencontro total que é a vida de Victor (Liberto Rabal). Pra começo de conversa, o bebê não esperou que sua mãe chegasse ao hospital para tê-lo - nasceu ali mesmo no ônibus, na rua deserta. Ao crescer, Victor se apaixona por Elena (Francesca Neri), uma jovem drogada com quem havia tido sua primeira vez. Ao voltar ao apartamento da moça, ele se envolve num mal-entendido: ao tentar tirar a arma da mãe da moça, que o expulsava de lá, há um disparo acidental sem nenhuma vítima e dois policiais vão averiguar a situação. Lá chegando, nova briga pela posse da arma e novo disparo. Dessa vez, as consequencias desse tiro serão irreversíveis.

David (Javier Bardem, excelente) é o policial atingido. O tiro acerta sua coluna e ele fica paraplégico. Poderia ser o começo do melodrama, mas David se torna um astro do basquete paraolímpico. Victor vai preso, fica 4 anos cumprindo pena por causa de seu crime. Ao sair, tem uma ideia fixa: vai se vingar do policial que o pôs naquele lugar. Descobre então que Elena está casada com David, e sua raiva aumenta. Sua mãe havia morrido enquanto ele estava na prisão, e lhe deixara uma herança: uma casinha muito humilde (e abandonada) e algum dinheiro. Indo visitar o túmulo da mãe, encontra o casal no funeral de um amigo. Ali ele descobre onde Elena trabalha e vai procurar emprego lá. Seu plano agora incluía partir o coração de Elena.

Victor acaba se envolvendo sexualmente com uma mulher que conheceu no cemitério - a esposa de Sancho (José Sancho), o ex-parceiro de David, que estava com ele no dia do acidente. Ciumento, possessivo, agressivo e bebendo descontroladamente, Sancho havia se convencido de que a mulher o traía. Então a machucava e depois pedia desculpas. Após sua mulher lhe contar que havia visto Victor no cemitério, David resolve vigiar o rapaz: descobre o envolvimento dele com Clara (Angela Molina). Então, o ciclo se fecha.

Victor aprende tudo sobre sexo com Clara, e não desiste de seu plano de voltar a ter Elena pra si. Elena se sente responsável por David, uma vez que eles se conheceram no dia do acidente que o deixou paraplégico. David não consegue controlar os ciúmes que sente por sua esposa e, depois que ela confessa que teve uma noite tórrida com Victor, ele decide se vingar. Pega todas as fotos que ele registrou dos encontros de Clara e Victor e os leva para o amigo Sancho. Louco de ciúmes, Sancho vai para a casa de Victor para matá-lo. Clara, cansada da vida que levava, decide se antecipar ao marido e tenta fugir. Antes, passa na casa de Victor para se despedir e dar explicações. Elena, ao saber o que o marido fez, sabe que a vida de Victor está em perigo. Sem demora, descobre o endereço do rapaz e vai correndo pra lá. No caminho encontra o próprio marido, que havia levado Sancho até lá para que ele realizasse a vingança pelos dois. Num duelo estilo faroeste, Clara atira no próprio marido para salvar a vida de Victor, por quem verdadeiramente se apaixonara. Sancho mata a esposa e depois se suicida - ele nçao conseguiria viver sem ela. Victor e Elena se unem, e como no início do filme, tem que correr para um hospital a fim de ver a chegada do filho do casal. Tentando acalmar a criança, ou a mãe, ou até mesmo a si próprio, Victor conta ao filho que ele também teve pressa pra nascer, e que nem tudo precisa ser tão urgente.

Amores não correspondidos, partos inusitados, injustiças, reviravoltas, amores que se encontram. Destinos que se cruzam e se esbarram, interferem umas nas outras, causam danos irreparáveis, mudam para sempre as rotas. Uma história forte, contada nas cores carregadas de Almodóvar, com poucas cenas de sexo - porém fortes (que mostram tudo sem mostrar quase nada). Confesso que esperava algo mais luxurioso, a julgar pelo título. Mas Carne trêmula (Carne tremula, 1997) é muito mais que puro desejo carnal. É desejo de vida.

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