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sábado, 12 de janeiro de 2013

Desencontros amorosos em Manhattan



Woody Allen pode estar alcançando enormes bilheterias com seus cartões-postais da Europa, suas Scarlets e suas Penelopes. Mas é mesmo na sua Nova York natal que ele revela o que seus textos têm de melhor: autoironia, sarcasmo, pessimismo, milhões de referências artísticas e muita, muita neurose. Manhattan tem tudo isso, com dois adicionais infalíveis: Allen, o melhor intérprete de seu alter ego, e Diane Keaton, talvez a musa mais inspiradora do cineasta. Some-se a isso vários desencontros amorosos e uma fotografia primorosa, e tem-se um filme singelo, divertido e emocionante.

Isaac (Allen) é um roteirista de 42 anos que vive um romance com Tracy (Mariel Hemingway), de 17. Embora os dois se deem bem, ele não encara o relacionamento como algo sério. Sua certeza só vem a se confirmar quando ele conhece Mary (Keaton), amante de seu melhor amigo. Depois de um início desastroso, os dois começam a achar afinidades, mas ir adiante significaria partir o coração da adolescente e  passar por cima da amizade. Além disso, ambicionando escrever um livro, ele decide largar o emprego.

O que parece ser um enredo de um grande melodrama é tratado com a sofisticação costumeira de Allen e permeada com diálogos impagáveis. Em plena crise profissional, por exemplo, Isaac manifesta desagrado com o próprio trabalho e critica a postura dos telespectadores, que, segundo ele, vem sendo moldados há anos por programas de baixo nível, como se "raios gama devorassem os leucócitos de seus cérebros". Absolutamente paranoico com tudo que possa causar câncer, ele também tem muitas dores de cabeça desde que sua ex-mulher, Jill (Meryl Streep), decide contar os bastidores da separação. O escritor fica obcecado com o fato de que toda a intimidade do casal possa vir à tona.

Mas a comédia, aqui, é pincelada em doses suaves, já que os complicados envolvimentos entre os personagens levantam questões sobre fidelidade, confiança, maturidade e tudo mais que os adultos ainda não aprenderam muito bem como lidar. Quem diria que uma jovem de 17 anos pudesse ter algo a ensinar? É uma pena que Mariel seja a mais fraca do elenco, mas a força de Tracy consegue compensar suas limitações. Meryl Streep, lindíssima, surge sempre segura em cena, mas aparece bem pouco. O destaque, portanto, vai para Allen e Diane, que repetem a bem-sucedida parceria de Noivo neurótico, noiva nervosa, constroem uma relação bastante verossímil e adorável, que vai da culpa à felicidade plena, passa pelas incertezas e termina... termina onde mesmo? Se os roteiros do diretor são tão verdadeiros é porque têm uma matéria-prima criativa ao extremo: a vida, ela mesma.

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