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sábado, 19 de janeiro de 2013

Quando ser humano é contra a lei

Fotografia espetacular e tomadas fotográficas tornam as cenas ainda mais instigantes
Interessante esse Alphaville (Alphaville, 1965) e por vários motivos. A ideia de um futuro onde ter emoções é proibido, uma terra que ninguém consegue definir exatamente onde ou como é, as Terras Externas que são um mistério, as pessoas robóticas que tem um frágil bloqueio mental que as impede de ter emoções (leves sugestões trazem à tona a memória, e logo agentes aparecem para levar os grupos a aulas de doutrinação), espiões que não sabem muito bem o que estão investigando... São muitos pequenos detalhes que intrigam, do início ao fim. A fotografia do filme é um espetáculo à parte, e ajudam a criar a atmosfera intensa durante o filme todo: em preto e branco, trabalha com reflexos, contra-luzes e iluminação noturna (aliadas às tomadas quase fotográficas, cheias de grafismos) também aguça os sentidos e a direção de arte, com ares sessentistas, ousa parecer futurista e chique num mundo decadente.

Acompanhamos a trajetória de Lemy Caution (Eddie Constantine), que se apresenta com o nome de Ivan Jackson, chegando à Alphaville. Até então, é uma noite normal em uma cidade normal. Mas as pessoas agem estranhamente, muito polida e formalmente. Enquanto se acomoda em seu quarto de hotel e a prostituta Brigitte se prepara para o banho, o casal é surpreendido por um homem que surge, aparentemente, do nada. Enquanto os homens brigam violentamente e Levy acaba por atirar no invasor, Brigitte termina seu banho calmamente. Não há reação de histeria ou preocupação, não há emoção alguma nela. E os outros habitantes também: ninguém se sobressalta com o tiro disparado dentro do quarto 344. Porquê? O que são aquelas pessoas? O que ele procura?

Jackson (Constantine): um espião das Terras Externas em Alphaville

Descobrimos que Levy tem uma missão: ele é espião das Terras Externas e precisa entrar em contato com o doutor Von Braun (Howard Vernon) e tirar algumas conclusões. Ou matá-lo. Sua ligação seria através de outro homem, que se mostra um bêbado vivendo em um lugar decadente. Este fala a Levy um pouco do que é Alphaville. É uma cidade onde as pessoas são proibidas de ter emoção, e há o controle de Alpha 60 em todo o canto. Poucos são os que resistem, e os que fraquejam, morrem. Não sem fazer dessa morte um espetáculo. Um encontro com a filha do senhor Von Braun, Natacha (Anna Karina), que surge em seu apartamento e as evidências encontradas no quarto do misterioso bêbado (um livro com citações sublinhadas) são a chave para que ele consiga se aproximar do doutor Braun. O que Levy não contava era ter se apaixonado pela misteriosa e bela Natacha. E isso era muito perigoso.

Seguindo a narrativa, Levy vai a encontros secretos, onde os personagens são doutrinados, assiste às execuções de  transgressores (lindas mulheres assassinam com facas aos homens atirados à uma piscina, e fazem uma espécie de balé macabro enquanto a cúpula de Alphaville aplaude mecanicamente) que ousaram demonstrar emoções, é interrogado pelo computador enquanto este tenta captar se houve algum registro de emoção. Descobre-se que a cidade está prestes a ser bombardeada e destruída, e que Levy está ali mais para constatar a loucura que havia tomado conta de todos. Ao tentar conversar com o doutor Von Braun, este não aceita ouvir seus argumentos, nega que soubesse ou conhecesse o doutor Nosferatu a quem se refere (uma alusão não explicada) e é agredido por seus seguranças. Uma das cenas mais interessantes acontece aqui: Natacha nega que está chorando ao ver Levy sendo arrastado inconsciente para fora do prédio e justifica que "não está chorando porque é proibido".

Natacha (Karina) e Jackson (Constantine): a loucura que imobiliza
os habitantes de  Alphaville se eles tentam fugir

Ainda assim, é convidado a encontrar-se com outros doutores do Alpha 60, uma mistura de empresa com laboratório e QG de guerra, de onde eram lançadas as doutrinas após pesquisas minuciosas sobre o comportamento humano com o objetivo de neutralizá-lo. Tudo em nome da normalidade, uma normalidade robótica imposta aos seres humanos. As proibições são passadas à população através das bíblias, que eles leem todos os dias. Mas não são bíblias comuns: são dicionários. Se a palavra não está lá, não existe. E é proibida. Toda a humanidade estava sendo tirada dos habitantes da cidade, e não havia mais como parar as engrenagens. Sabendo que não irá conseguir novo contato com Von Braun e que a cidade está condenada, Levy procura por Natacha. A encontra em seu apartamento, e tenta fazer com que ela se lembre de algumas palavras - as que estavam sublinhadas no livro "A loucura da cidade", que ele tinha pegado com o bêbado após sua morte. Natacha não lembra de frases e palavras, ou seus significados: não sabe o que significa amor, e outras relacionadas a emoções. Instigando, Levy consegue fazer com que ela se lembre e até recite alguns trechos de poesia - coisa considerada a mais subversiva em Alphaville. Como estavam sendo vigiados, ele acaba sendo levado de volta para o prédio onde havia sido interrogado pelo Alpha 60. Consegue fugir às bordoadas e, após um frenesi coletivo (não explicado, também), salva Natacha, a levando em segurança por uma via intergalática para as Terras Externas.

Palavras proibidas: qualquer uma que envolva emoção
O filme todo é uma mistura de narrativas: terceira pessoa, com o Alpha 60 elucidando e interrogando os personagens em uma voz rouca e ritmo lento, acusador; e primeira pessoa, com os personagens olhando diretamente para a câmera enquanto interagem. Inquietante. Os diálogos meio intrincados são sempre evasivos, dão um show à parte. A gente começa com muitas dúvidas. E termina com muitas outras. E, mesmo assim, o filme agrada. As questões ficam martelando sua cabeça por um bom tempo depois que se termina de ver o filme. E as reflexões também são muitas. O que é Alphaville, na verdade? Uma cidade atual, usada em um experimento ou é o nosso futuro apocalíptico, onde estamos destinados a nos adaptar a um sistema ou morrer? O que nos levou a esse apocalipse, nossos excessos e arroubos de emoções ou nossa apatia e falta deles? Quem era o doutor Von Braun, que havia sido um estrangeiro na cidade e ali era uma espécie de governante? Porque ele tinha e queria o controle absoluto de todos da cidade? O computador Alpha 60 era realmente um programa de computador? O que são e onde ficam as Terras Externas? Sobram questões e faltam respostas, assim como na vida real. E as metáforas e analogias são usadas para uma reflexão sobre nossa realidade, sobre nossas relações interpessoais. Um futuro de pessoas próximas, porém com abismos emocionais perante si; a máquina tomando a importância do ser humano e este sendo "coisificado" - era permitido fazer ligações intergaláticas, mas era proibido chorar pela esposa falecida. Uma cidade de zumbis, praticamente, destinada à decadência. De todos os filmes que falam sobre o fim da humanidade, este é um dos mais contundentes - porque estamos caminhando (sinistramente) em marcha lenta para Alphaville. Uma pena não termos rodovias intergaláticas para fugir...

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