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domingo, 31 de março de 2013

Casos de Família



Ana (Portman) e Maria (Johansson), as irmãs Bolena: a disputa pelo amor de um homem e o poder
Não sei vocês, mas eu achei que essa história, além de um bom filme, dava um ótimo programa da Márcia. Sério mesmo. Vamos começar do começo: A outra (The other Boleyn girl, 2008) conta a história do rei Henrique VIII (Eric Bana, não emplaca um filme, coitado), que era casado com Catarina de Aragão (Ana Torrent) num casamento arranjado para manter a paz entre os reinos da Inglaterra e da Espanha. Mas a pobre da Catarina não conseguia ter um filho homem de Henrique, o que era um problema: quem seria o herdeiro do rei se ele não conseguia ter um filho homem? O casamento e a aliança entre os países estava por um fio quando o último bebê de Catarina nasceu morto e os médicos disseram que ela não poderia mais ter outros. Percebendo a oportunidade de obter alguma vantagem, Sir Thomas Boleyn (Mark Rylance) procura a irmã para oferecer a ela uma oportunidade: se uma de suas filhas agradasse ao rei, seria sua concubina e toda a família viveria nas boas graças do rei. Legal, né? Só que não.

O ambicioso pai das meninas já havia arrumado um casamento para a mais nova, Maria (Scarlett Johansson, tentando parecer pura e inocente) e poupado a mais velha, Ana (Natalie Portman, sempre com boas atuações) para algo mais grandioso. A mãe das meninas obviamente foi contra ter uma filha vivendo como concubina do rei, ela era muito religiosa para aceitar que sua filha vivesse em adultério. Mas eram os homens quem comandavam, e ela não teve escolha: com a visita do rei e Maria casada, Ana ficou encarregada de cair nas graças do monarca para ajudar a família a ter uma melhor posição na sociedade. Na primeira oportunidade que teve, Ana quase arruinou tudo: levando o rei para um terreno acidentado (que ela  conhecia muito bem), o rei cai do cavalo e se machuca muito. Com medo de perder até mesmo a própria vida, Sir Thomas aconselha ao cunhado que faça a outra filha a cuidar dos ferimentos do rei. Não deu outra. O rei acaba se encantando pela doçura e a beleza de Maria (optei pelos nomes em português, me fazem lembrar das aulas de história). O tio ambicioso conseguiu o que queria: levar a família inteira pra corte, ganhar boas relações com o rei e regalias, porque tinha dado um precioso presente para ele: uma de suas sobrinhas. 

Henrique VIII (Bana) e Maria Bolena (Johansson): um amor sincero, nascido por "acaso"
Aí começa a desgraça dos Bolena. Ana não se conforma de ter sido preterida pelo rei e que Maria tenha sido escolhida; justo a irmã mais nova e mais bonita, que havia se casado antes da mais velha (o que era um escândalo na época). E porque o rei não havia se interessado nela se ela conseguia chamar a atenção do homem mais bonito da corte? Cheia de raiva, ressentimento e inveja da irmã mais nova, que havia conquistado  o amor do rei (o marido? Bem, ele tinha ganhado um título, não é?), ela foge e casa secretamente com o fidalgo bonitão. Mas seu marido era prometido à outra fidalga, e como o casamento havia sido secreto, melhor seria que ele fosse desfeito e tudo seguisse como se nada tivesse acontecido. Um escândalo como esse poderia estragar a relação com o rei e a famílila cair em desgraça geral na sociedade. Abandonada pelo marido, preterida pelo rei, Ana foi forçada a passar um tempo na corte francesa até que os ânimos se acalmassem. Enquanto isso, Maria e Henrique estavam vivendo um romance lindo, ambos apaixonados, até que Maria engravidou. Como ela quase perdeu o bebê uma vez, foi-lhe recomendado repouso absoluto até o fim da gravidez. Então o medo de que Maria fosse esquecida pelo rei assombrou o pai e o tio dela. A solução que encontraram foi quase óbvia: chamar de volta Ana da corte francesa, para que ela o lembrasse sempre de sua irmã.

Mas o tiro saiu pela culatra. Ana voltou transformada da corte francesa. Sua personalidade forte e sua ambição haviam se fortalecido, e ela começou a usar sua inteligência para o mal. Ana soube como atrair a atenção do rei: mantendo a fachada de fiel à irmã e à família, atiçava a imaginação do rei passando a ideia de puritanismo enquanto o instigava e seduzia, mantendo-se inacessível. Rejeitava os presentes caros que ele lhe dava e se negava a dormir com o rei por causa da gravidez da irmã. Ora, negue duas coisas ao homem que sempre tem tudo o que quer e você consegue ficar na mente dele. O tempo todo. Logo o romance começa a ficar mais sério, uma vez que o rei não consegue mais esconder sua atração por Ana. E ela começa a jogar ainda mais sujo. Quando sua irmã finalmente vai ter o bebê, o rei procura Ana para que ela lhe dê uma única chance com ele. Nasce um menino, o herdeiro tão querido e esperado do rei e Maria tem a chance de voltar a ser o centro das atenções de Henrique, mas Ana age rápido e aceita a proposta de Henrique: ela dava esperanças a ele se ele se comprometivesse em nunca mais olhar para a irmã. Dito e feito, o rei rejeita o filho sem nem sequer olhar para a criança.


Ana Bolena (Portman) finalmente consegue o que queria: a atenção do rei (Bana)
A fúria de seu pai e tio é grande: quando eles finalmente teriam garantido toda a segurança e regalias para a família pelo herdeiro do trono ter saído de Maria, Ana estraga tudo impedindo o rei de ter contado com a irmã e a criança por um capricho dela. Então ela tem que recuperar tudo, fazer tudo dar certo. Mas como ela conseguiria isso se havia prometido ao rei que só se entregaria a ela quando fossem casados se o rei já era casado? Ana começa a incutir na cabeça do rei a ideia de romper com a Igreja católica e criar a própria igreja, com suas próprias regras. Henrique tomou a decisão: anularia seu casamento com Catarina, que era  amada pelo povo, e mudaria a igreja para se casar propriamente com Ana. Esta começou a ser odiada pelo povo, e quando veio à tona a questão do primeiro casamento de Ana, aí que quase tudo foi para o brejo. Ana soube contornar tudo: avisada que o rei iria pedir a opinião de sua irmã (que havia se mudado para o campo após o nascimento do filho), convence a ela a dar um parecer favorável à ela. E é o que Maria faz. Henrique segue adiante com o plano, desfaz o casamento com Catarina, rompe com a igreja católica e casa-se com Ana, que logo engravida. Então nasce uma menina, que ela chama Elizabeth, e a loucura toma conta dela. A paranóia por se sentir ameaçada, pelo povo e pela concorrência de outras mulheres da corte, o rei já não tem mais tanto interesse nela, Ana é capaz de tudo para manter o marido a seu lado. Quando ela engravida  novamente, uma trégua é dada. Mas a criança nasce antes da hora, e então tudo estaria perdido. Como um último recurso, ela chega a pedir ao irmão George (Jim Sturgerss) que a engravidasse sem que ninguém mais soubesse do ocorrido, então ela daria um herdeiro bastardo ao rei e ele nem desconfiaria. Indignada com o plano da irmã, Maria vai embora. Os irmãos não conseguem ir adiante, mas a ciumenta esposa de George vê às escondidas o que eles planejavam fazer e corre para contar ao tio de ambos e ao rei. Então George é executado por traição, a cabeça de Ana está por um fio, e Maria resolve voltar para interceder pela irmã. Mas o rei já havia se distanciado o suficiente de Ana para querer perdoá-la, mesmo com a irmã intercedendo por ela. Maria fica avisada pelo rei que não iria mais ser poupada se voltasse a por os pés na corte, Ana foi decapitada por ter conspirado e traído o rei e a menina Elizabeth vai viver no campo com a tia.

Uma tragédia digna do teatro grego, mas inspirada em fatos históricos. A pequena Elizabeth veio a se tornar a rainha Elizabeth primeira, revolucionária por ser a primeira herdeira mulher a assumir o trono inglês. Uma história de amor, traição, ambição, vingança, loucura. O rompimento de Henrique VIII com a igreja católica mudou para sempre a Inglaterra, que se tornou protestante anglicana e é, até hoje, a religião oficial do país. Uma história intrigante e interessante, muito bem retratada no filme. Exceto a Scarlett Johansson, que tem desempenho fraco toda vez que tenta transmitir inocência em suas personagens (acha que uma postura ingênua é cabeça baixa, bico e olhar atravessado - sempre a mesma expressão), todos os outros atores defendem bem as nuances de seus personagens, o que torna o filme ainda mais interessante. E pensar que essa história ainda tem um desdobramento histórico tão interessante quanto, ou ainda mais, quando no final fica revelado a descendência de Henrique VIII, o filme se torna uma boa versão da história. E ainda assim, seria um prato cheio pra um programa da Márcia.

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