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sábado, 26 de outubro de 2013

Alma, Hitch e seus trabalhos

Volta e meia ouvimos alguém dizer: o livro é melhor (que o filme)! Em raríssimas ocasiões o que ocorre é o oposto. Nas melhores, ambos se igualam em qualidade. Hitchcock é um desses felizes casos.

Assim como no livro, o filme nos mostra os bastidores de Psicose, sem deixar de antes nos apresentar brevemente Ed Gein. O assassino real, que inspirou Norman Bates, é personagem na trama. Um alter ego de Alfred Hitchcock (Anthony Hopkins), que mostra desde o início seu nível de envolvimento com o trabalho e a trama do filme.

Conhecemos então, Hitch e sua esposa Alma (Hellen Mirren), à procura de um novo projeto, após a recepção ruim de Intriga Internacional. É claro, Hitch se interessou pelo material mais improvável possível, considerado uma péssima ideia, e uma história de muito mal gosto, os problemas começaram aí. Com a descrença e recusa da Paramount em patrocinar o filme.

Tendo que financiar o próprio projeto, o diretor e seus fiéis colaboradores vão à luta para fazer tudo da forma mais barata possível, sem perder a qualidade. Assim vemos Joseph Stephano (Ralph Macchio) ser escolhido pelo próprio Hitchcock para o projeto. A estranha relação do diretor com o elenco, encantado por Janet Leigh, meio indiferente, embora aparentemente satisfeito com Anthony Perkins, e seu desprezo por Vera Miles. A atriz seria estrela de Um Corpo que Cai, mas desistiu pouco antes do início das filmagens, quando descobriu estar grávida. Hitch não conseguia entender como a moça preferiu ser mãe e dona de casa, à ser estrela de Hollywood. Como "castigo", lhe deu um papel menor, peruca e figurinos feios, e não falava direito com a moça.

Mas é sua relação com a esposa Alma o coração desta trama. Diferente do livro, bastante detalhista quanto a produção, o longa deixa alguns desses detalhes de lado, para tentar apresentar a figura mítica que era Alfred Hitchcock. Muito longe de ser exatamente "amantes", eles eram amigos e companheiros. Alma era sua mais fiel e longeva colaboradora, e provavelmente a única que o entedia e encarava. Em alguns momentos um personagem chega a dizer, que para o diretor, era a opinião dela que realmente importava.

Muito bem explorada, em parte graças ao talento de Mirren e Hopkins, a relação apresenta um Hitchcock mais "humano" em contraponto com a poderosa "máquina de fazer filme" que aparentava ser. E Alma como, uma personalidade forte que o mantinha nos eixos. Não tão bem acertada são as conversas (dentro da própria mente) do diretor e Ed. Gein (Michael Wincott). Uma tentativa de mostrar a intensidade da relação do cineasta com suas obras, torna sua figura um tanto quanto assustadora em alguns momentos. Será que em prol do trabalho, ele faria as mesmas coisa que Gein?

De volta à produção de Psicose, a produção de arte recria com eficiência não apenas a época, mas os cenários e roupas da produção original. A escalação do elenco espertamente escolhe as beldades Scarlett Johansson e Jessica Biel para viver respectivamente Janet Leigh e Vera Miles. Johansson surpreende ao replicar com eficiência as expressões de Leigh nas cenas da viagem de carro. Entretanto, o que impressiona mesmo é a semelhança visual e gestual de James D'Arcy com Anthony Perkins. Não acredito que o Perkins fosse assim na vida real, mas no filme, durante cena de sua entrevista para o papel, já ficamos com medo de Norman Bates. Tem ainda Toni Collete em ponta de luxo.

Apesar de não ser preso ao "passo-a-passo" do livro, nem term o tom documental que a obra literária oferece. Como toda biografia, traz muitos personagens. Ter um pouco de conhecimento da história, ou ao menos assistido à Psicose, ajuda na hora do "quem-é-quem". Também da parte histórica, conhecemos o interessante órgão censor da época, que evitava que cenas de mal gosto, como a de um sanitário dando descarga, chegasse à audiência.

Obrigatório para quem gosta de cinema e do cineasta e por um motivo ou outro ainda não pode ler o livro. Divertido e bem produzido para o público em geral. Não sei seu personagem/personalidade principal aprovaria, mas Hitchcock é um ótimo filme.

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