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sábado, 6 de setembro de 2014

Não é só mais um clube do bolinha

Que tal experimentar ver a vida com outros olhos?
 
Sabe aqueles filmes que marcam a vida da gente? Não importa o motivo, mas a gente gosta de qualquer jeito e se emociona toda santa vez que assiste? Esse é o meu caso com Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, 1989). Lembro de ter assistido pela primeira vez quando era uma adolescente, e por sugestão de uma professora de Português que era uma espécie de John Keating para mim. Fiquei anos sem rever o longa, que desde a primeira vez que assisti se tornou um dos meus favoritos - mesmo sem eu ter muita noção de cinema (habilidade que ainda estou desenvolvendo) ou do porquê ele me tocar tanto. Foi ao assistir novamente para o blog que eu pude compreender inteiramente a importância dele na minha vida.
 
Em um rígido colégio interno e exclusivamente de meninos, um jovem professor, ex-aluno do colégio, causa uma revolução com seus métodos de ensino diferentes dos habituais da instituição. John Keating (Robin Williams, simplesmente inspirador) é o responsável pela mudança na vida dos jovens da escola, que abraçando ou não as ideias do professor, acabaram tendo suas vidas transformadas com o decorrer do tempo. Keating chega trazendo um sopro de juventude e pensamento inovador em um local dominado por senhores austeros e metodologia chata de ensino. Ele instiga os jovens a pensarem por si próprios, a agirem como quiserem, a serem quem quiserem. A forma apaixonada como lida com a Literatura, sua disciplina, abala as convicções de alguns dos jovens que se viam divididos entre a vontade própria e as obrigações de serem bons alunos e motivo de orgulho para os pais. Era o caso de Neil (Robert Sean Leonard, perfeito), que sempre se dobrava aos duros conselhos do pai e sufocava seu talento para a interpretação, e do jovem Todd (Ethan Hawke, que soava realmente promissor) que vivia à sombra da ótima reputação do irmão mais velho e ex-aluno queridinho da escola.
 

Literatura e futebol. Ora, por que não?

Neil era um dos mais empolgados com os métodos diferentes do professor, e foi procurar saber mais sobre ele. No anuário, descobriu uma referência à uma Sociedade dos Poetas Mortos. Junto com seus amigos Todd, Knox (Josh Charles), Meeks (Allelon Ruggiero), Charlie (Gale Hansen), Pitts (James Waterson) e um desconfiado Cameron (Dylan Kussman), foram indagar o professor sobre o que era a Sociedade. Ele lhes disse que se tratava de um grupo dedicado à leitura de poesias, que se encontravam em uma caverna no meio do bosque nos arredores do colégio. Mas não era só isso, era um grupo que celebrava a vida. Inspirados pela ideia, eles resolvem recriar a Sociedade. Os encontros começam e as aulas do professor ficam ainda mais inspiradoras. Keating parece perceber que seus alunos são pólvora e quer ser a fagulha que incendiará a vida neles. E, de certa forma, os rapazes percebem isso e aceitam serem incendiados. Knox decide tentar conquistar o amor de sua vida, uma menina que está noiva de um capitão de time de futebol; Neil decide finalmente tentar uma vaga em uma peça de teatro, e vai aos ensaios escondido dos pais e dos diretores do colégio; Todd vence seu medo de falar em público e descobre em si um potencial artístico que nem sabia que existia; Charlie mergulha tanto nesse universo de lutar pela própria liberdade que acaba por se renomear, em homenagem aos ancestrais índios, e quer ser chamado de Nuwanda e começa a se exaltar em sua rebeldia. Era um indício de que as coisas começariam a dar errado. Charlie acaba sendo expulso do colégio depois de uma brincadeirinha de mau gosto publicada no jornal da escola em nome da Sociedade - mas não delata os amigos.
 
Quando Neil tem que enfrentar o pai para seguir seu sonho de ser ator, ele acaba cedendo. Compromete-se a abandonar o teatro a voltar para os estudos, mas com a chance de se apresentar enquanto o pai estivesse fora da cidade o fizeram arriscar. Neil arrasa em sua interpretação como o Duende na peça shakespeariana "Sonhos de uma noite de verão" e deixa os amigos e o professor Keating orgulhosíssimos. Mas o pai de Neil estava lá, e o obriga a voltar para casa com ele, e ainda diz que vai tirá-lo da Academia Welton e inscreve-lo numa escola militar no dia seguinte. Sabendo que o pai não mentiria quanto a essas promessas e prevendo um futuro infeliz, onde não podia realizar seu maior sonho nem fazer o que quer que ele desejasse fazer para ser feliz, o jovem então se suicida. O pai culpa a Sociedade dos Poetas mortos, e os diretores do colégio partem para uma caça às bruxas. Os alunos voltam a ter aulas com o diretor do colégio, no método tradicional de ensino, e o professor Keating é banido do colégio, levando toda a culpa por ter incitado a rebeldia que resultou no suicídio de Neil. Mas os verdadeiros Poetas Mortos não seriam mais os mesmos garotos tímidos e submissos - eles, apesar de não poder fazer nada a respeito da expulsão do professor, demonstram a sua lealdade e gratidão a ele, por tudo o que ele fez por eles naquele ano em que esteve no colégio, numa das cenas mais emocionantes do filme.
 
Oh Capitain, my Capitain!
Quando os alunos todos ficam de pé, sobre as carteiras, e dizem "Capitão, meu Capitão!" mesmo sob os protestos e ameaças do diretor, é impossível segurar as lágrimas. Os olhos marejados de Williams ao fim da cena demonstram o orgulho de um professor que viu a semente brotar e sabe que seu trabalho foi realizado, e que a luta pela liberdade e pelo que há de mais bonito na vida, pela humanidade que existe em nós, não estava perdida. Os que ousaram se levantar são a prova de que basta uma ideia bem construída e coragem para seguir adiante - e foi isso o que ele devolveu aos garotos: coragem de ser eles mesmos. A atuação brilhante de Williams e a paixão de Leonard são peça chave na construção dessa pérola cinematográfica: por estarem tão entregues a seus personagens, alimentados de paixão, eles inspiram qualquer um. Hawke também delineou bem seu personagem Todd, que cresce e amadurece a olhos vistos em cena - aliás, a cena em que ele tem que declamar uma poesia criada sob pressão é linda. Ver (e rever) esse filme me faz voltar a acreditar que a gente deve sim seguir nossos sonhos, apesar dos pesares. Devemos lutar pelo que nos faz feliz e não nos conformar com o que nos cabe, ou que nos é oferecido, sem nunca esquecer das consequências. "Sugar o tutano da vida" faz cada vez mais sentido, e o famosíssimo "carpe diem" não significa sair por aí fazendo loucuras, mas descobrir que podemos ser felizes aproveitando até mesmo as pequenas alegrias. Fazer valer a pena uma vida, e não deixar que a vida passe por nós.
 
Engraçado que dia desses eu estava no ônibus, indo para o trabalho, e entreouvi uma conversa de duas jovens. Uma delas comentava que assistir a Sociedade dos Poetas Mortos havia sido crucial para ela decidir que queria ser professora, porque ela se viu inspirada a fazer o mesmo que o professor Keating tinha feito com os alunos. Ela dizia que faltava amor pela boa literatura e que os jovens estavam se contentando com pouco, que o mundo seria muito melhor se houvesse mais gente interessada em fazer poesia do que em ostentar nas redes sociais. A minha vontade era de virar para trás e abraçar a moça, e dizer que ela estava no caminho certo. Mas como isso seria, no mínimo, estranho, decidi apenas agradecer mentalmente aos realizadores do filme por terem eternizado essa obra, e ao querido Robin Williams, que vai continuar inspirando gerações de pessoas como aquela futura professora.

3 comentários:

renatocinema disse...

Esse filme é de chorar......e muito.

Pior que trabalhei numa escola e o diretor metia o pau no filme ao dizer que ele não era pedagógico.....

Ele tem emoção e isso é vida. Eu dizia a ele.

Resultado::::::::::ele saiu da escola. kkk

Geisy Almeida disse...

Olá, Renato!

Que relato bacana! Eu confesso que sempre torci para que aquele mala do diretor do filme também fosse expulso da Academia Welton e que o Keating voltasse como novo diretor rs

Obrigada pela visita e volte sempre!

Fabiane Bastos disse...

Aí a pessoa gosta tanto do filme que já escreve a sequencia, né Geisy???

KKKK