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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Deserto


Deserto (Desierto, 2015) é um filme tenso. Passado todo no deserto que une (e divide) os Estados Unidos do México, o drama de Jonas Cuarón relata a estória de um grupo de imigrantes ilegais mexicanos tentando atravessar o deserto e que acabam encontrando um vigilante solitário - que acha que cumpre seu papel de proteger a pátria. Entre sol forte, promessas de uma vida nova, areia, sonhos pedras e cactus, a luta pela sobrevivência ganha novos significados.

Moisés (Gael García Bernal) faz parte de um grupo de mexicanos que embarca clandestinamente para os Estados Unidos. Quando o carro deles quebra no meio do deserto, as coisas saem do planejado: a rota muda e o destino de todos também. O grupo se divide e com ele permanecem um dos guias,  Mechas (Diego Cataño), Adela (Alondra Hidalgo) e Ramiro (Óscar Flores Guerrero) - uma jovem cujos pais sonhavam com sua segurança e a deixaram nas mãos de um atravessador - e Ulisses (David Peralta Arreola), que acabaram não conseguindo acompanhar o ritmo do outro guia e a maior parte do grupo. E o que parecia ser uma desvantagem tornou-se uma segunda chance para eles.

Moisés (Bernal) e Adela (Hidalgo): imaginar-se na pele deles nesse momento é algo aterrador
Sam (Jeffrey Jean Morgan) é um americano que costuma caçar no deserto - mas não exatamente como um caçador normal. Suas presas não são os animais que lá habitam, mas qualquer um que tente atravessar a fronteira de forma ilegal. Ele avista o grupo de Moisés e até comenta sobre eles com um dos patrulheiros locais, mas resolve agir por conta própria. Com a ajuda de seu cão de caça Tracker (sugestivo nome de Rastreador para um animal de estimação) ele começa a perseguição. Sem dó - e até com um terrível prazer em fazê-lo - ele abate o primeiro pelotão (que não tinha onde se esconder). Ao perceber que não tinha terminado com todo o grupo, ele embarca numa verdadeira caçada aos sobreviventes.

Embora não seja um filme com apelo comercial, Deserto tem um argumento bastante atual capaz de atrair a atenção do público: a busca por condições melhores de vida em solo estrangeiro. É um choque de realidade para quem nunca realmente pensou em como seria uma travessia dessas, nem nas expectativas que essas pessoas carregam. Mais do que isso, o filme é uma reflexão enorme sobre Poder: quem é mais poderoso? O homem americano e seus armamentos e táticas de guerra? O sonho dos que buscam um lugar melhor para viver? O deserto, que divide todos os que ousam desafiá-lo em sobreviventes ou não-sobreviventes?

O desempenho de Jeffrey Dean Morgan como o atirador Sam é sensacional
Com personagens extremamente humanos (mesmo na monstruosa desumanidade do preconceito de Sam, é possível enxergar ali um homem de espírito quebrado e mentalidade distorcida), é difícil ser indiferente aos personagens de Cuarón. Mesmo sendo lançado aqui no país dois anos após sua realização, o longa traz um diálogo bastante atual - principalmente em um Estados Unidos da era Trump. Vale a pena conferir a belíssima fotografia de Damián García e o ótimo desempenho de Jeffrey Dean Morgan. 

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