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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Glória feita de...

Coronel Dax (Douglas) e a difícil tarefa de levar seus homens vivos para casa
Eu podia e devia enfileirar um monte de palavrões à sequencia do meu título, mas fico com "babaquice" para definir. Sim, porque acho guerras em geral a maior babaquice já inventada pelo homem. Glória feita de sangue (Paths of glory, 1957) mostra bem isso. Kubrick mostra em um recorte da Segunda Guerra, um episódio nada importante para a definição do resultado da odiosa guerra, mas que era importante para os homens que ali viveram (e morreram). Há quem diga que as guerras são como jogos de xadrez, mas eu discordo - os peões que morrem no tabuleiro não são vidas humanas e sempre podem entrar no jogo de novo. Guerras na vida real nunca são travadas com peões de brinquedo, e sempre há muitas mortes em ambos os lados - vencedores só perdem menos soldados que os vencedores. Pra mim, só se começa uma briga quando não se consegue mais argumentar - e não conseguir argumentar pondo em risco a vida de milhares de soldados nunca é a melhor opção.

Tudo começa pela vaidade e orgulho de quem começa a querer mais do que tem. Cobiça, ganância e, no caso da Segunda Guerra, preconceito e racismo, levaram uma nação a achar que podiam (melhor, deviam) reorganizar o mundo. Daí vieram os que tentaram argumentar, e não foram ouvidos.  Parte-se, então, para a briga. No caso, uma guerra mundial. Então começam as outras vaidades: quem entra pra briga, não quer saber de perder. Seja uma batalha, o prestígio, o que quer que seja. E por orgulho, para que seus generais pudessem "ganhar uma estrelinha da tia", o Coronel Dax (Kirk Douglas, espetacular) é obrigado a levar seu regimento a uma missão suicida. A frente inimiga estava bem solidificada e havia poucos homens para tentar o assalto e manter a nova posição. Ainda assim, ele lidera o ataque e boa parte de seus homens morrem. Outra parte, que estava sob o comando de outro capitão (um tremendo covarde, que já havia provado sua covardia ao não assumir a responsabilidade pela morte de um soldado em uma missão anterior fracassada por sua precipitação) não avançou. O superior que ali estava para comandar a missão ordena então que se atire nas próprias fileiras para que eles marchem para a morte ou morram sob os tiros de seus próprios companheiros.

Os executados: porque alguém tinha que ser responsabilizado pela m&*¨# que os chefes fizeram
Quando sua ordem não é acatada pelo responsável pela retaguarda, o capitão cancela o ataque e leva o caso à corte marcial. Às pressas, ele pretende encontrar culpados para o fracasso de uma operação designada a ele e que o promoveria. Sobra para o coronel Dax escolher entre seus homens quem será morto. Sim, porque a corte foi mera formalidade - uma vez que não acataram a ordem, então todos deveriam morrer. Não importa se o instinto humano de sobrevivência tenha gritado, o que importa é a insolência e insubordinação. Plenamente puníveis com a morte. Querendo desmoralizar e acabar com a sombra de uma derrota em seu currículo, por ele todo o regimento 701 seria fuzilado. Em vez disso, o coronel Dax consegue que apenas um de cada pelotão fosse a julgamento, acreditando ser possível salvá-los. Não consegue, e então ele vê seus homens morrerem: os escolhidos são um desafeto de um capitão e outros dois sorteados aleatoriamente. O quão banal é a vida de um ser humano, não é?

Uma crítica ácida e ferrenha à guerra, onde os contrastes de ambiente são gritantes (as condições de vida dos grandes oficiais e as trincheiras são dois lados de uma mesma moeda) e as vidas dos subalternos não interessam às políticas são reforçadas pela dramaticidade e inteligência da fotografia e dos planos escolhidos pelo diretor. As brilhantes atuações de todo o elenco, com destaque para Kirk Douglas em seu atordoado e impotente papel de um coronel que precisa obedecer e que ainda tem um pouco de humanidade e juízo, são outro ponto forte do filme. A direção de Kubrick, segura e sem medo de expor a soberba, arrogância e as terríveis consequências dos egos inflados colocam sal na ferida. O tocante final, em que o coronel vê seus homens se divertindo antes da próxima batalha, com aquela expressão de "deixe que se divirtam, amanhã estarão todos mortos - de um jeito ou de outro" é emblemática. Um dos melhores filmes de guerra a que já tive o prazer de assistir.

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