3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Mágico de Oz

Seguindo a estrada de tijolos amarelos...
...We're off to see the Wizard, the wonderfull Wizard of Oz.

O Mágico de Oz
The Wizard of Oz - 1939- EUA
101min. - Colorido/Sépia (?!)

Musical/Aventura

Direção: Victor Fleming

Roteiro: Noel Langley, Florence Ryerson, e Edgar Allan Woolf

Musica: Harold Arlen

Com: Judy Garland, GaleFrank Morgan, Ray Bolger, Bert Lahr, Jack Haley, Billie Burke, Margaret Hamilton, Charley Grapewin, Clara Blandick.

Baseado no livro infantil homônimo de L. Frank Baum, que escreveu outros 13 livros sobre Oz. Vencendor de 2 Oscar em 1940.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Tubarão Trapalhão

Devo agora pedir a vocês que perdoem a mente perturbada da blogueira que vos escreve. Ao assistir a Tubarão, o filme da semana, no DVD, sofá e pipoca, uma cena de um outro filme me veio a cabeça. E, devo confessar, é provavelmente a imagem mais forte que tenho do ícone carnívoro criado por Spielberg.

A cena é de Saltimbancos Trapalhões (eles mesmos! Didi, Dedé Mussum e Zacarias). No filme de 1981, o quarteto enfrenta o tubarão em um sonho de Didi. Toda a sequência de sonho faz referências a Hollywood, com direito a cowboys e ficção científica no estilo Star Wars. E parece um pretexto perfeito para levar o elenco para passear nos parques da Universal.

Mandibula premiada

Sucesso de público, Tubarão não fez feio nas premiações. Vejam quantos prêmios o bichão abocanhou, em 1976:

Oscar
  • Venceu nas categorias de melhor trilha sonora, melhor montagem e melhor som.
  • Nomeado na categoria de melhor filme.

Prêmio Eddie

  • Venceu na categoria de melhor edição.

BAFTA

  • John Wiiliams recebeu o prêmio Anthony Asquith para música de filme.
  • Foi nomeado nas categorias de melhor ator (Richard Dreyfuss), melhor direção, melhor filme, melhor montagem, melhor roteiro e melhor trilha sonora.

Globo de Ouro

  • Venceu na categoria de melhor trilha sonora.
  • Nomeado nas categorias de melhor filme - drama, melhor diretor e melhor roteiro.

Grammy

  • Venceu na categoria de melhor trilha sonora composta para um filme.

Prêmio WGA (Writers Guild of America)

  • Indicado na categoria de melhor drama adaptado de outra mídia.

People's Choice Awards

  • Venceu na categoria de filme favorito.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sem medo, mas com cautela!

Ao contrário de minhas colegas, eu não tenho medo algum do mar, meu único problemas com praias é a areia. Mas confesso: faz muito tempo que não levava sustos como estes assistindo a um filme. Ainda mais se considerarmos que é um filme a que assisti várias vezes na infância (e que foi copiado à exaustão).

É verdade, não me lembrava muito além da música e do bichão pulando fora d'água. Talvez por isso não pude conter um grito que acordou uma mãe assustada no sofá, quando o oceanógrafo encontrou um cadáver no barco dos pescadores desaparecidos. E o dito tubarão não estava na cena. Acho que na verdade esperava o monstro marinho e me assustei por ver outra coisa.

O susto também pode ter sido efeito da trilha de suspense. Não é à toa que é a característica mais marcante do filme, é a primeira coisa que Spielberg nos oferece. A forte batida de apenas duas notas parece ajustar nosso coração ao seu ritmo. Uma vez sincronizados nada faz o ritmo desacelerar e o nervoso diminuir.

A sensação é levada ao extremo quando o trio de "cabra macho" embarca na maria fumaça do oceano (fumacento aquele barco, não!) para caçar o bicho. Nem as cenas de calmaria, quando esperamos a fera aparecer, ajudam a passar o nervoso.

Tubarão é um exercício, para descobrir nossos mais primitivos temores. E, convenhamos, temos medo de tudo! Medo do que não estamos vendo (o tubarão mesmo custa a aprecer). Do que possamos ver. Do misterioso animal. Do desconhecido. Temos medo até dos barris amarelos assassinos e da multidão furiosa que empurra para longe criancinhas com bóias que fiquem em seu caminho.

Mas não é só de medo que vive o clássico inventor do "blockbuster". Também vive de ganância. Das autoridades que negam o perigo para não espantar os turistas. Do povo que não tá nem aí e só quer curtir o feriadão na praia. Ao ponto de termos mais vontade de dar um jeito nessas pessoas que no próprio tubarão.

Mais que uma distração, o filme assusta, diverte e aumenta o consumo de pipoca para acalmar o nervoso. Além de gerar os posts com imagens mais violentas da história do blog. Ainda não tenho medo. Mas com certeza sempre que for encarar o mar aberto vou conseguir um barco maior.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Curiosidades de Tubarão

Ao longo de 35 anos desde seu lançamento, Tubarão colecionou um número enorme de curisidades, mitos e referências. Confira aqui alguns deles.
Bruce de Procurando Nemo tem seu nome
inspirado pelo Tubarão de Spielberg

Mostrar o minimo possivel do predador. Recurso para aumentar o suspense? Nada disso! O real motivo para o tubarão pouco aparecer era que a réplica robô que seria usada nas gravações funcionava muito mal. Por sorte, o problema apenas melhorou o clima.

A réplica mecânica de um tubarão em tamanho natural usada no filme recebeu o nome de Bruce.

Em Procurando Nemo, Barry Humphries interpreta um tubarão autraliano tentando superar seu vício por carne. O nome do bichano? Bruce!

O intérprete original do personagem Quint era Sterling Hayden, que não pôde ficar com o papel devido a problemas com o fisco americano, que ficaria com todo o cachê recebido como pagamento por sua participação;

Na cena do início do filme em que foi atacada por um tubarão, Susan Backlinie estava presa a correntes e mergulhadores a puxavam para baixo para dar a exata impressão de que um tubarão estava atacando;

Tubarão levou aos cinemas brasileiros mais de 13 milhões de pessoas e chegou a ocupar a 2ª posição no ranking das maiores bilheterias do país;

Duas notas. Foi só o que John Williams precisou para meter medo em platérias gigantescas. A trilha sonora de Tubarão é uma das mais conhecidas e marcantes da história do cinema.

O livro, e posteriormente o longa, foram baseados numa série de ataques reais de tubarões em New Jersey, em 1916.

No livro, que deu origem ao filme a esposa de Brody o trai com Hooper, mas o episódio foi deixado de fora no filme. Também no livro, Hooper morre após mergulhar na jaula, o que não acontece no longa;

O autor do livro que deu origem a Tubarão, Peter Benchley, tinha em mente um elenco bem diferente para o filme, composto por Robert Redford, Paul Newman e Steve McQueen;

McFly encara o Tubarão 19
Em De Volta para o Futuro II, Marty (Michael J. Fox) passeia por 2015 quando é surpreendido por uma propaganda holográfica de Tubarão 19, dirigido por Max Spilberg. Steven Spilberg, diretor de Tubarão, também é um dos produtores da trilogia De Volta para o Futuro e realmente tem um filho chamado Max;

A selachophobia (nome científico do medo de tubarões) aumentou rapidamente em 1975 depois do lançamento do filme Tubarão.

O que o Dr. Gregory House tem em comum com tubarão? No final de cada epsódio a vinheta da produtora de Brian Singer (o cara dos X-Men) aparece na tela. O nome Bad Hat Harry é inspirado em uma cena de Tubarão, assim como a vinheta. Singer, um dos produtores da série é viciado no longa. Assita abaixo a vinheta e a cena na qual foi inspirada.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

May day! May day!


Vou te contar, esse foi o filme mais difícil de ver até agora. Isso pelo simples fato de eu morrer de medo de mar aberto. Qualquer filme que fale sobre mares em fúria, surf, naufrágios, expedições submarinas etc. são difíceis pra mim (à exceção de Procurando Nemo, mas esse não conta para a finaldade desse blog). E Tubarão (Jaws) não me ajudou em nada quanto a superar esse medo. Beleza, é tudo mentira porque é cinema. Tá bom. Não duvido nada de que realmente exista um monstro gigante comedor de "qualquer coisa apetitosa que sangre e apareça no meu caminho". Imagine, então, meu desespero ao assistir impotente a esse tubarão assassino rondando três homens num barco com motor quebrado e naufragando, sem qualquer comunicação com a terra e sem nenhuma arma realmente qualificada pra matar o bichano? Eu gritava, me contorcia, fechava os olhos... Que agonia! Minha irmã dava gargalhadas do outro quarto.


E não adianta, não consigo não me envolver com os filmes a que assisto - e Tubarão é um filme envolvente. A minha primeira impressão foi de estar vendo o filme errado: jovens da geração "paz e amor" relaxavam e cantavam à beira da praia. Tudo muito anos 70, o filme ia com jeitão de "Sessão da tarde" até o momento em que a menina resolve se jogar nua no mar pra provocar o rapaz. Pronto. Lá vem a câmera subaquática que te faz ter a perspectiva do tubarão assassino, você está olhando pra sua presa, e de repente, você é a pobre garota que se debate desesperada, lutando para não ser afogada, tentando pedir socorro pro amigo que não a escuta de tão chapado que estava, tentando se agarrar no sinaleiro... Até que simplesmente some na água. Some a isso a trilha sonora inconfundível e a morte dolorosa da personagem fica gravada na memória. Isso em 10 minutos de filme. Quanto faltava pro final?


A tensão é constante, desde a primeira morte. Tanto por causa da ameaça no mar quanto pelo clima em terra firme. É verão e temporada turística em Amity, o prefeito não quer que os turistas sejam impedidos de ir às praias - o que o leva a não interditá-las imediatamente, causando a segunda morte do filme. Aliás, todas as cenas de morte são muito fortes. Tem sangue pra tudo o que é lado, violentíssimas. A gente acompanha indícios de que há um tubarão na área, que ele está presente (a trilha não te deixa dúvida), mas o bichão só aparece atacando de verdade no fim do filme, quando três homens (o xerife, o oceanógrafo e o pescador-caçador) são caçados em alto-mar. Aliás, cada personagem tem uma história carregada. O prefeito que quer manter as aparências "pelo bem do povo", a mãe transtornada, o xerife impotente, o pescador-caçador de tubarões e sobrevivente da Segunda Guerra, o oceanógrafo rico que usa a fortuna pra se dedicar à sua paixão... Até o tubarão é interessante: ele sabe o que faz quando está caçando, e isso faz de você a presa.


Outra coisa que merece destaque: os efeitos especiais. Sim, estão superdefasados, mas ainda impressionam. A textura da pele do tubarão parece de verdade, os movimentos supermecânicos da bocarra são compensados pelo terror da cena (realize um tubarão de 7 metros e 3 toneladas quebrando o seu barco pra te devorar ou estar submerso e ter sua gaiola de proteção estraçalhada - com você lá dentro)


Não é um filme que te mate de susto, é suspense na sua essência: visceral, te faz acompanhar impotente as situações na tela, te faz refém, te faz querer largar o filme pela metade, mas você já não pode mais porque precisa saber o que vai acontecer no final. Como é que eles vão se safar dessa?! Quem é que consegue escapar dessa coisa?! Surpreendente, intenso, tenso, chocante, nojento, clássico, imperdível.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Mitos de Tubarão

A Semana do Tubarão, um especial do Discovery Channel concentra em uma semana programas especiais sobre o predador dos mares. Hábitos, espécies, e tudo mais que você puder aprender sobre os bichanos.

Menos informativos e muito mais divertidos, Os Caçadores de Mitos entraram na onda em uma das edições. Jaime, Adam e cia testaram mitos do clássico de Spilberg. Confira se as proezas realizadas pelos protagonistas e pelo bichão são reais ou apenas viagens de Hollywood.

Você pode assistir o programa aqui mesmo na longa lista de reprodução disponível no YouTube, ou no AOL vídeos. Seguem o link e o player.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Suspense que não fica no óbvio

 

Confesso a vocês que as lembranças que tinha de Tubarão eram apenas as imagens de pessoas se sacudindo na água ao som da inconfundível trilha sonora de John Williams. Mas acho que isso se deve mais ao fato de o filme ter virado um clássico e essas sequências terem sido repetidas à exaustão (isso sem falar no enorme número de continuações do longa de Spielberg). Da história mesmo, não lembrava quase nada.  Aliás, nem tenho certeza de ter assistido ao longa até o final. E este post foi a desculpa perfeita para refrescar minha memória. Até aí, ótimo, mas lembrei também do pavor que tenho do mar. E ver gente sendo devorada não é assim das experiências mais agradáveis, vamos combinar.

Dito isto, primeira observação que vem à mente: oba, não é um filme do tipo "resta um"! Coisa mais irritante história capenga que só serve como pretexto para você tentar adivinhar a próxima vítima. E, na maioria das vezes, você já sabe de antemão como vai acontecer. Suspense dos bons tem permissão pra brincar com o espectador, e é isso que acontece, por exemplo, em uma determinada sequência do filme: os moradores de Amity na praia, na maior tranquilidade. Close na gordinha, no menininho, no cachorrinho... Todo mundo apostando suas fichas em quem vai virar comida de tubarão primeiro, e, no fim das contas, não passa de uma brincadeira de criança. Bom demais.

Mas Tubarão não se resume a isso: o filme dá uma guinada bem interessante na segunda metade, quando a caça ao animal assassino começa de verdade. O chefe de polícia, o oceanógrafo e o pescador valentão, isolados em um barquinho, perto de um bichão de três toneladas pra lá de faminto, travam uma verdadeira luta pela sobrevivência, e arriscam suas vidas por gente que foi egoísta até o último fio de cabelo. Ou o que dizer do prefeito, preocupado em não afastar os turistas em pleno feriadão de 4 de julho, incentivando o velhinho a entrar na água, e deixando seus filhos brincarem perto da morte? E os pescadores, que  protestam contra o fechamento das praias, e das autoridades que negam o óbvio, dizendo que a primeira vítima foi morta pela hélice de um barco?

Considerações à parte, é nessa parte final que Spielberg consegue provocar ainda mais agonia. Se ele nos poupa, ao máximo, de ver cadáveres durante o filme (bom gosto nessas horas é fundamental), ele nos faz pular na cadeira toda vez que o animal se aproxima. Na cena (muito bem feita) em que Matt mergulha dentro de uma gaiola para se aproximar do bicho, o nível de desespero da pessoa aqui chega perto do máximo. Ou quando Quint luta desesperadamente para sobreviver, não dá para deixar de torcer por ele, mesmo sabendo que a tragédia é inevitável. Cinema bom é isso, o resto é brincadeira.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tubarão

Para você que acaba de voltar do feriadão de carnaval na praia e, felizmente, não encontrou nenhum.

Tubarão
Jaws - 1975- EUA
124min. - Colorido
Terror/Suspense

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Carl Gottlieb

Musica:John Williams

Com: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Murray Hamilton, Carl Gottlieb, Jeffrey C. Kramer, Susan Backlinie, Jonathan Filley, Ted Grossman, Chris Rebello, Jay Mello, Lee Fierro, Jeffrey Voorhees, Craig Kingsbury.

Baseado em romance homónimo de Peter Benchley. O filme teve 3 continuações, Tubarão II (1978), Tubarão III (1983) e Tubarão IV - A Vingança (1987).

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Tarantino em sua melhor forma


O caminho do homem justo é rodeado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens de mal. Abençoado é aquele que, no nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale de escuridão, para quem ele é verdadeiramente seu irmão protetor, e aquele que encontra suas crianças perdidas. E eu os atacarei, com grande vingança e raiva furiosa àqueles que tentam envenenar e destruir meus irmãos. E você saberá que meu nome é o Senhor quando minha vingança cair sobre você.

Pulp fiction é um dos meus filmes favoritos do Tarantino, ao lado de Cães de aluguel e Bastardos inglórios. Não lembro exatamente quando assisti pela primeira vez, mas sei que a cada vez que revejo, gosto mais ainda. Não só pela tão cultuada narrativa não-linear, que hoje já coisa batida em Hollywood, mas porque adoro os diálogos do diretor/roteirista e seus personagens ordinários (no melhor sentido da palava), mas que, assim mesmo, conseguem ser marcantes. Tão marcantes que é só fazer uma busca por imagens do filme que se encontram dezenas de montagens, colagens e artes sobre Uma Thurman e sua franjinha indefectível, e John Travolta e Samuel L. Jackson de capangas chiques. É o sonho de qualquer diretor: fazer filme com personagens interessantes, diálogos inteligentes e visual forte. Tarantino sabe mesmo das coisas.

E se em Kill Bill ele acabou perdendo a mão nas cenas de violência (acho que ele estava lendo mangás demais), é nos filmes dele mais desacelerados que a gente consegue ver mais qualidades em seu trabalho. Jules, personagem de Jackson, pra mim, é um dos pontos altos do filme. A citação que abre este post, retirada da Bíblia (Ezequiel 25:17) é dita pelo bandido sempre antes de executar um homem. O mesmo que, ao escapar da morte, vê um sinal divino e decide largar essa vida. Vejam bem, não se trata de um fanático religioso, afinal ele ganha a vida matando pessoas. É um cara que tem um conceito totalmente diferente de vida e morte, mas de uma hora para outra, tem um estalo e resolve mudar. Tudo decidido friamente, racionalmente. E nem é preciso dizer que Samuel L. Jackson arrebenta em cena.

O resto é uma delícia de se ver: Tim Roth e sua namorada histérica fazendo juras de amor antes de anunciar um assalto, Travolta desesperado tentando salvar a mulher do chefe de uma overdose, Tarantino de pijamas com medo de levar bronca da mulher, Bruce Willis escapando da morte porque seu assassino foi ao banheiro. Tem violência, claro. Mas o humor negro presente em todos esses momentos é impagável. Sem falar na trilha sonora espetacular, que aí já é covardia. É por essas e outras que continuo amando Pulp fiction.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

You Never Can Tell - Versão Russa

O vídeo a seguir é número musical de um programa especial de feriado feito na Rússia em 2006. Nele Anastasia Stockaya e Dmitri Dyuzhev cantam uma versão da música de Chuck Berry e parodiam a cena de Travolta e Thurman em Pulp Fiction.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Banalidades

A primeira cena: um casal em uma lanchonete conversando tranquilamente sobre assaltos. Até que decidem que o local é perfeito para se cometer um. - Todo mundo quieto, é um assalto! - Longos créditos, com música marcante e nada de voltarmos para o assalto. Agora vemos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) em uma visita de cortesia que acaba virando uma chacina. Depois Vincent tem que divertir a mulher do chefe, Mia Wallace (Uma Thurman),  para se divertir enquanto ele está fora da cidade. Bruce Willis é Butch Coolidge, um pugilista que devia perder uma luta comprada, mas não o fez, agora tem que fugir da cidade. Vincent e Jules estão de volta e tem que limpar a sujeira de uma morte acidental em seu carro logo após a primeira chacina. Tudo isso é um filme só!

Achou confuso? Tudo bem! Provavelmente era esse o objetivo de Tarantino em Pulp fiction. Te confundir até o fim, quando tudo parece se encaixar miraculosamente e finalmente você entende: vida e morte são coisas banais hoje em dia!

Tanto que hambúrgueres e TV são o assuntos que antecedem uma mantança. Ou uma simples distração pode tirar uma vida, supreendendo até o assassino. Em uma época cercada de violência, sua abordagem direta, mostra de forma ousada o mundo do crime.

A violência está lá fora! Para muitos é tão comum quanto trocar de camisa. O filme esfrega isso na cara dos espectadores. Sem meias palavras, sem licensas poéticas, sem censura, tornando impossível assisitir sem ser afetado por ele (positivamente, ou não. Tem que ter 18, né!).

Misturado a muito humor negro (cada lugar para se esconder um relógio!), ainda restam algumas lições. Com a personagem de Uma Thurman, assisistimos os prós e contras de curtir o momento. Já Samuel L. Jackson, nos faz uma análise sobre milagres e atos divinos. Mostranto que mesmo assassinos tem sua ética e até um método de trabalho. Recite a Bíblia e apague o cara.

A narrativa não-linear (marca de Tarantino) foi um marco na época. Atualmente não é mais novidade. Na verdade, estamos até acostumados a ela (Lost, Sin City, Crash). Então acho que o efeito diminui para quem só assisitiu ao longa agora, após toda revolução narrativa. Mesmo assim ela ainda possibilita a existência de vários protagonistas, o que aproxima a narrativa do público. Um deles pode morar perto de você!

A história é fora de ordem, e, mesmo assim, o final forma um ciclo. O filme começa como termina, no restaurante. Não pude deixar de pensar, isso vai continuar. A violência é ciclica.

É sobre banalidades sim, mas está longe de ser uma obra banal.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

You Never Can Tell

É só falar em Pulp Fiction que a cena vem à cabeça. Aliás, ela é provavelmente a mais usada para representar o filme em programas de TV, matérias de revistas, jornais e internet. Então vamos lá!

Com vocês John Travolta e Uma Thurman dançando o sucesso de Chuck Berry, You Never Can Tell.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Reflexão também rima com diversão



Filmes do Tarantino são sempre cheios de referências pop, sarcasmo, tiradas geniais, trilha sonora deliciosa, uma aparição do próprio Tarantino e muito, muito diálogo. Papo cabeça na veia, tem que prestar muita atenção pra não se perder (coisa de nerd). Um pouquinho de sono e pronto, perdeu o fio da meada. Ou pior, perdeu a piada. Como na história de Butch (Bruce Willis), em que a gente acompanha um Cristopher Walken tentando explicar para o menino Butch de onde veio o relógio do pai dele.


A vida é cruel e irônica, e ele a retrata da forma mais crua possível. E, claro, o diretor faz questão de usar muito sangue pra pintar esse quadro. Aliás, devo admitir que acho isso divertidíssimo. Quando você começaria a rir ao ver um homem ter a cabeça estourada dentro de um carro se não fosse num filme do Tarantino? Ou ao ver uma tentativa desesperada de salvar a vida de uma mulher quase morta por overdose? O cara é um gênio. A naturalidade com que as personagens falam de coisas absurdas, como o casal que discute como vão assaltar o restaurante onde estão tomando café da manhã enquanto dicutem a relação é algo chocante. É o tipo de coisa que não se vê no cinema, mas pode fazer ao estar sentado numa roda de amigos.


Tarantino é um gênio, consegue captar o que os atores tem de melhor e usar com maestria. Não tem um único ator que "erre" quando ele está atrás das câmeras. Talvez tenha sido por isso que John Travolta aceitou voltar pras pistas de dança depois do sucesso de Grease e Os embalos de sábado à noite 1 e 2. Ainda bem que ele disse "sim", por que nós fomos brindados com a sequência de Vincent (Travolta) dançando com Mia (Uma Thurman), a esposa do chefe, descalça, drogada e desengonçada, dançando como se não houvesse amanhã. Referência cult e modelo de fantasia feminina quase obrigatória em festas a fantasia. E o que falar de Samuel L. Jackson? Pra mim, sua personagem é a melhor do filme - um assassino que recita um trecho da Bíblia antes de matar e que, após não ser atingido por uma saraivada de balas, acredita que presenciou um milagre e resolve abandonar a vida de crimes. Sensacional. Outra personagem bábara é o Mr. Wolf (Harvey Keitel). Com uma elegância que permite até o uso de smoking e gravata borboleta, o especialista chega pra limpar a barra do Jules (Jackson) e Vincent (Travolta). Espetacular. Keitel só precisou de poucos minutos em cena para ser inesquecível.


Pulp Fiction fala de vários tipos de violência: da guerra, das drogas, da forma de se expressar, da busca por dinheiro fácil, dos assassinatos, da violência sexual, no trânsito. Mas essas pessoas não são cruéis. Elas só são violentas em determinadas ocasiões, assim como qualquer um (quem nunca perdeu a cabeça que atire a primeira pedra). Como esperar que um cara que matou outro com as próprias mãos em um ringue de boxe seja tão carinhoso e compreensivo com a mulher que é, digamos, um pouco "lenta"? Ou que dois assassinos profissionais tenham que recorrer a uma ajudinha para que não se metessem em encrenca com a esposa do amigo? São essas sutilezas que os tornam humanos.


Acho que é por isso que esse filme é tão cultuado: fala abertamente de violência em vários níveis de uma maneira inteligente, que nos faz refletir sobre nossa própria vida, mas que não desce indigesto como muitos outros "filmes-cabeça" que a gente ver por aí. Ele é atual, divertido, sagaz, de humor ácido e com atuações espetaculares. Para ver, rever, se divertir e refletir.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Pulp Fiction

É tempo de Tarantino! 

Pulp Fiction - Tempo de Violência

Pulp Fiction- 1994- EUA
154 min. - Colorido - 18 anos

Policial

Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino

Com: Tim Roth, John Travolta, Samuel L. Jackson, Amanda Plummer, Eric Stoltz, Bruce Willis, Ving Rhames, Phil LaMarr, Maria de Medeiros, Rosanna Arquette, Peter Greene, Uma Thurman, Duane Whitaker, Paul Calderon, Frank Whaley.


Baseado em uma história de Tarantino e Roger Avary. Vencedor do Oscar de Roteiro Original em 1995.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Janela para uma época





"Antigamente conhecíamos alguém, nos apaixonávamos e casávamos. Agora é preciso ler muitos livros, aprender palavras difíceis, analisar um ao outro... até não poder mais distinguir entre um namoro e um concurso público"

Dizer que Alfred Hitchcock é um mestre seria chover no molhado. Entretanto, rever Janela Indiscreta após 20 anos me fez querer reforçar essa chuva.

Com magistral desenvoltura, Hitchcock mostra que suspense não precisa gerar desconforto no espectador, mas sim transformá-lo em expectador. Com um tom bem humorado, mescla a investigação de um assassinato com uma discussão do novo papel das mulheres na sociedade - que levaria à "revolução sexual", na década seguinte - e as implicações destes efeitos nas relações humanas; apresenta um mundo de transição onde o velho e o novo entram em conflito, alternando entre o cômico e o trágico.

O foco do roteiro é Greenwich Village, local em que vivem diversos personagens observados pelo protagonista,

L.B. Jeffries - interpretado brilhantemente por James Stewart. Jeff apresenta particular interesse pelos moradores solitários, que parecem ter vidas mais curiosas. Ele próprio, aliás, vive um dilema entre permanecer solitário ou dar continuidade à sua relação com Lisa Carol Fremont, em interpretação majestosa de Grace Kelly. Apenas quando a mulher de um dos casais some - e seu marido se torna solitário - é que a atenção de Jeff se direciona ao possível assassinato.

Em um outro nível, o roteiro apresenta a contraposição entre a "nova mulher", feliz e de sucesso que, aparentemente, conquista o que quer - como Lisa e a Srta. Torso, e a angústia daquelas que não conseguem obter o mesmo êxito, como a Srta. Lonelyheart. Mostra também uma maior atividade das mulheres, fato contraposto ao de homens que sequer saem de casa, sendo o próprio Jeff dependente de cuidados femininos. As exceções na "imobilidade" masculina ficam por conta de Tom Doyle e Lars Thorwald, que têm o importante papel de manter o suspense da história. Lars, em especial, representa um possível enfraquecimento do papel masculino na sociedade: um homem incapaz de dispensar os cuidados necessários à sua esposa.
"É frustrante pensar que a única maneira de fazer parte de sua vida é assinar sua revista"

As mulheres dominam a ação do roteiro, mas essa supremacia não para por aí: dominam também na pró-atividade com relação aos relacionamentos. Enquanto Jeff se recusa a mover em um milímetro sua rotina, Lisa engole seu orgulho e, sem abandonar sua individualidade, amplia seus horizontes e mostra para Jeff que ela é, sim, capaz de acompanhá-lo em uma vida de aventuras, fazendo coisas que sequer ele teria coragem. É bem verdade que Lisa acaba dependendo de Jeff para se salvar de algumas enrascadas, apresentando então a importância da cumplicidade para o estabelecimento de laços entre um casal, mesmo em uma sociedade em que os papéis masculino e feminino encontravam-se em transição.

A história ainda coloca em questão a transformação do privado em público, talvez uma questão já em debate na época; em especial, mostra a contradição de Jeff que, na maior parte do filme observa os outros, mas sempre se esconde quando alguém tenta observá-lo. Em determinado ponto, escondendo-se para não ser visto, ele analisa a expressão de seu observado, dizendo que ele está com cara de quem não quer ser observado, de quem esconde algo. Neste mesmo momento, porém, a expressão facial de Jeff diz algo bastante similar a seu respeito.
No fim, fica a dúvida sobre qual seria a verdadeira Rear Window: aquela que Jeff usa para observar Greenwich Village... ou a janela pela qual nós, espectadores, observamos os momentos mais íntimos da vida deste cativante personagem?

Daniel Caetano

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Viver a vida... dos outros

É difícil imaginar uma situação como essa hoje em dia, pensei, ao rever Janela indiscreta, com todas as janelas cheias de grades e todo mundo trancafiado dentro de casa. Acontece que, mesmo sem bisbilhotar, só de passar pelo meu quarto, sei quando a vizinha está jogando paciência no computador, e provavelmente ela sabe quando eu estou passando roupa. O fato é que, se algo estiver ao alcance dos nossos olhos, acabamos não resistindo. A curiosidade é uma característica humana, não tem jeito.

E o filme de Hitchcock, além de provar isso, discute de forma magistral as consequências disso. Até que ponto podemos interferir na intimidade das pessoas? Fotos de artistas sendo "flagrados" com seus supostos namorados, com seus filhos recém-nascidos ou até mesmo fazendo coisas banais são a matéria-prima de qualquer revista de celebridades. E antes de atirarem a primeira pedra, lembrem-se de que isso só acontece porque muita gente compra e lê esse material. Se existe algum culpado, somos todos nós.

Mas além do interesse pela vida alheia, nós somos espectadores o tempo todo. Você já deve ter lido algum artigo comparando o personagem de James Stewart a nós mesmos, na sala de cinema. Isso porque, além de curiosos, nós somos viciados em histórias. Mas, desta vez, me veio uma imagem à cabeça: a situação do fotógrafo, que não pode sair de casa por motivos de saúde, e se distrai acompanhando a vida dos outros é mais parecido com quem assiste à TV. Cada janela de um vizinho representa uma atração de um canal diferente, e, conforme ele vai passeando o olhar pelo prédio em frente, é como se estivesse zapeando à procura de algo que lhe agrade. 

Jeff é um profissional que está acostumado a viajar pelo mundo, vivendo grandes emoções, seja no meio de uma guerra ou no safári africano, é ele quem vai atrás das histórias. Quando se acidenta e fica impossibilitado de fazer isso, sua única solução é viver a vida através dos outros. E aí ele coloca apelidos nos vizinhos, como a Sra. Coração Solitário e a Senhorita Torso, conhece a rotina deles, acompanha os acontecimentos em suas vidas... Eles são tão interessantes porque possuem a liberdade que lhe foi tirada. Por outro lado, Lisa (Grace Kelly, deslumbrante), sua noiva chique e refinada, entrega-se à curiosidade e à imaginação com tanto ou mais afinco, assim como a prática Stella (Thelma Ritter, divertidíssima). Basta um empurrãozinho, que todo mundo entra no jogo.

Bom, como eu já falei de tanta coisa externa ao filme, queria só fazer uma homenagem a Hitchcock, que nos brinda com uma sequência maravilhosa, quando Lisa vai até a casa de Thorwald, o suspeito de ter matado a mulher. A tensão só vai aumentando até a parte em que Jeff se dá conta de que está sozinho, e o assassino vai em sua direção. E é tudo feito de maneira tão simples... Bastou uma atuação eficiente do elenco e uma edição precisa. Brilhante. Coisa que tem muito cineasta hoje em dia que pensa que é, mas não chega aos pés do mestre.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Cheia de graça


O mundo do cinema nunca seria o mesmo sem as grandes divas hollywodianas. Se hoje as musas são Angelina Jolie e Julia Roberts, uma pela sensualidade e a outra pelo carisma, a Hollywood dos anos 50 e 60 tinha bem mais nomes de peso. Um deles é Grace Kelly.

Nascida Grace Patricia Kelly no estado americano da Pensilvânia, Grace começou a atuar aos 12 anos numa pequena peça e, após ser rejeitada pela escola de artes por suas notas baixas em matemática, dedicou-se ao teatro e em pouco tempo chegou a televisão. Seu primeiro papel no cinema foi em Fourteen Hours, uma pequena participação. Torna-se muito popular ao fazer par romântico com Gary Cooper em "Matar ou Morrer" (High noon). Sua primeira indicação ao Oscar veio por Mogambo, filme de 1953 em que trabalhou com Clark Gable e Ava Gardner, mas não levou o prêmio, embora tenha vencido o Globo de Ouro por esse mesmo papel. O Oscar só viria um ano depois por "Amar é sofrer" (The country girl), em que trabalhou com Bing Crosby. A parceria com Hitchcok rendeu 3 grandes filmes - "Janela indiscreta" (Rear window), "Disque M para matar" (Dial M for Murder) e "Ladrão de casaca" (To catch a thief).

Em 1955, durante o Festival de Cannes, conheceu seu futuro marido, o príncipe Rainier III. Desse casamento nasceram seus 3 filhos: Caroline, Albert II e Stephanie. Grace morreu aos 52 anos de derrame cerebral após sofrer um acidente de carro em 1982. Sua filha Stephanie também estava no carro, mas não sofreu ferimentos graves. Na época, Stephanie foi acusada de estar dirigindo o veículo. A estrada em que sofreu o acidente aparece em "Ladrão de Casaca", ironicamente o filme que a levou a ser convidada para o Festival onde conheceu seu marido. Sua filha mais velha, Caroline, criou e mantém uma fundação com o nome da mãe, a Fundação Princesa Grace, que tem por objetivo ajudar novos talentos do teatro, da dança e do cinema.

Para mim, Grace Kelly e a princesa Diana são o mais próximo de contos-de-fada que realmente aconteceram. Ambas tiveram finais trágicos, suas vidas terminaram em acidentes horríveis, seus casamentos foram grandes acontecimentos na mídia, até hoje são referência em carisma e elegância. Mas a perda de Kelly foi muito mais trágica porque não perdemos somente a referência fashion, o ícone. Perdemos também um grande talento.

*biografia retirada de wikipedia.org

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Vamos dar uma "espiadinha"?

Desculpem, a piadinha foi inevitável. Como não lembrar de BBB assistindo a esse filme? Não duvido nada se o(s) criador(es) do formato do programa não tenha se inspirado nele para criar o primeiro Big Brother.
Devo dizer também que este é o meu primeiro filme de Grace Kelly. Estou até agora apaixonada pelos figurinos charmosíssimos e chiquérrimos que a personagem Lisa Fremont usa. Aliás, somente ela seria tão charmosa para escalar muros e subir escadas de incêndio para invadir um apartamento usando vestidos tão compridos, sem tropeçar nem perder a elegência. Não foi à toa que se tornou uma princesa de verdade.
Outra coisa que amei foi a câmera fotográfica. Inveja daquela lente gigantesca, daquelas que dá pra ver o que o cachorro andou fuçando no jardim do vizinho. E o flash? Imagina, ter que trocar a lâmpada a cada disparo dado? A vida dos fotófragos hoje em dia, mesmo com os seguranças das celebrities (e, às vezes, até as próprias celebrities) de ânimos alterados é bem menos complicada que antigamente.
Comentários bobos à parte, devo dizer que o filme é fofo. Mais uma vez me surpreendo com um filme em que esperava uma coisa e vi outra. Tanto falam que Hitchcok é o mestre do suspense que eu imaginava que o filme fosse ser eletrizante ou angustiante como os atuais. É delicioso. Tem um tom intimista, e a forma como a personagem Jeff (James Stewart) e a vizinhaça são apresentados nos faz sentir a mesma curiosidade em saber "que fim levou aquela história". Ora, quem mora em apartamento sabe muito bem o que estou falando. Não dá pra fugir da janela do vizinho, por mais que se coloquem persianas, cortinas e afins. E quem não é curioso, é mentiroso. Sua curiosidade pode até ser moderada ou concentrada em assuntos pertinentes e/ou específiicos, mas todo mundo é curioso. O diretor soube explorar isso, exatamente como qualquer um de nós teria feito. Sem alarde, só observando, juntando suspeitas que parecem absurdas... Mas, como todo bom jornalista que se preze, a curiosidade de Jeff é mais aguçada. Ele se apresenta como fotógrafo, mas é mais jornalista que qualquer outra coisa.
A vizinhança é muito interessante. A dançarina bonita que acaba por ficar com o soldado desengonçado; a vizinha artista que não faz muita coisa a não ser pegar sol e tomar conta das atividades alheias; o casal recém-casado, que chega esbanjando alegria e harmonia, mas acaba caindo na realidade antes do que eles imaginavam; a srta. Coração Solitário, que recebe visitas de pretendentes imaginários e sofre com os reais, mas que acaba desitindo do suicídio por causa do talento do vizinho músico - que envolve a todos (inclusive nós, espectadores) com sua música como "trilha sonora". Com vizinhança tão interessante, como não tentar espantar o tédio vigiando o que eles estão fazendo?
Um filme de suspense leve, charmoso, intrigante, com refinados toques de humor. O final não é surpreendente como anunciam no release do dvd, mas é perfeito. Personagens bem construídas, roteiro bem amarrado, um diretor afiado e cativante. Mais um pra minha lista dos "mais queridos".

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Outras janelas

Desde que Jeff (James Stewart) deu sua primeira bisbilhotada pela janela, a moda pegou. Agora o que não faltam são personagens vigiando a vida alheia. Todos, é claro, merecidas referências, e reverências, ao clássico do mestre do suspense Alfred Hitchcock.

Confira as referências mais interessantes:

Dublê de Corpo (Body Double, EUA, 1984)
Nesse suspense, um ator fracassado de filmes B admira uma mulher que tira a roupa na janela do apartamento em frente ao seu. No entanto, desconfia que aquela bela mulher é também perigosa e decide ir atrás para investigar. Dirigido por Brian De Palma, com Craig Wasson e Melanie Griffith

Cinco Evas e um Adão (Head Over Heels, EUA, 2001)
Isso mesmo, uma comédia romântica! Amanda Pierce divide o apartamento com quatro estonteantes top models. E parece ter encontrado o parceiro ideal no prédio em frente: Jim. O problema é que Amanda vê pela janela o que parece ser um crime. Jim assassinando uma garota com um bastão de beisebol. A partir daí, ela e suas quatro divertidas colegas de apartamento vão tentar investigar o caso. Dirigido por Mark Waters, com Monica Potter e Freddie Prinze Jr.

O Outro Lado da Rua (Brasil/França, 2004)
O representante brazuca da lista traz uma mulher aposentada que faz uma espécie de ''bico'' para a polícia carioca - denunciando bandidos, que logo são capturados. Um dia, da janela de sua casa, testemunha um assassinato. O suposto criminoso é preso, mas logo libertado por seu juiz. Não contente, a mulher continua investigado e acaba até se relacionando com o suspeito. Dirigido por Marcos Bernstein, com Fernanda Montenegro, Raul Cortez, Laura Cardoso.

Paranóia (Disturbia, EUA, 2007)
Após a morte do pai, o jovem Kale Brecht se torna uma pessoa mal-humorada, fechada e problemática. Tanto que depois de uma grande confusão um tribunal de justiça o sentencia à prisão domiciliar. Sem ter o que fazer, Kale se transforma num voyeur, sempre bisbilhotando as casas vizinhas. É quando ele começa a desconfiar que um dos vizinhos seja um serial killer.

Bad Romance (Lady Gaga, 2009)
O representante musical vem do fenômeno de 2009, Lady Gaga faz referência não apenas a Janela Indiscreta, mas a ao mestre do suspense Alfred Hitchcock, em um trecho de Bad Romance.
"I want your psycho (Psicose)
Your vertigo (Um corpo que cai) stick
Want you in my rear window (Janela Indiscreta)"

Lua de Mel em Metrópolis (Lois & Clark, 1993 - 1ª temporada)
Ao invés de assassinato, o homem de aço e sua parceira investigam pela janela de um hotel um político corrupto que negocia armas e ameça a segurança nacional. O episódio tem direito a Lois dando uma de Lisa e invadindo o apartamento em frente. É verdade que a tarefa fica muito mais fácil se seu parceiro não tem uma perna quebrada e ainda é capaz de voar, ver através de paredes, tem super-força,...

Um Bart na Escuridão (Bart of Darkness - Os Simpsons, 1994 - 6ª temporada)
Fechando com chave de ouro a versão da família amarela mais indiscreta da TV. Num dos verões mais quentes da historia, Bart e Lisa enchem o saco de Homer para construir uma piscina. Mas ao tentar saltar de sua casa da árvore para a piscina Bart cai, quebra a perna e fica todo o verão trancado em seu quarto. Ganha um telescópio de Lisa e começa a vigiar Springfield e acaba vendo o que parece ser Ned Flanders matando a esposa, Maude. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Olhando pela janela

Jeff (James Stewart) é um repórter fotográfico que sempre consegue novos ângulos para sua revista. A ultima grande foto o colocou no meio de uma pista de corrida, ele acabou quebrando a perna. Preso em casa até sua perna melhorar, em uma época que não tinha televisão, ele encontra distração olhando pela janela. Espiando os vizinhos, ele começa a desconfiar que um deles tenha cometido um assassinato. Com a ajuda de sua noiva Lisa (Grace Kelly), e da enfermeira Stella (Thelma Ritter), ele vai tentar encontrar provas do crime.

Começando bem devagar. Observamos as janelas, a vizinhança, conhecemos Jeff com quem copartilhamos a janela durante todo o longa. Depois passamos aos vizinhos, quem são? O que fazem? O suspense é a apresentado de forma crescente, envolvendo o expectador aos poucos, a cada nova dúvida ou descoberta. Culminando em um clímax, onde a tensão nos faz falar com a tela, literalmente. "Saí! Não! Corre, corre!"

A formula pode ser batida para nós, (não era quando lançado) mas não importa, o que vale aqui é a execução. E o executor é ninguem menos que Hitchcock, que sabe muito bem como contar uma história. Tanto que o faz sem nunca sair do quarto de Jeff.

Assistir a tudo por uma única janela é uma metáfora para o cinema em si. O quarto de Jeff é a sala, sua janela a tela. E os personagens, assim como nós, meros expectadores condenados a tirar conclusões apenas pelo que é mostrado.
Com apenas um ângulo, vemos apenas o que o protagonista vê. Sabemos o que ele sabe, o que deixa sempre margem para dúvida. O que estamos vendo é real ou só estamos ligando os pontos errados. Isso nos faz oscilar entre a culpa e a inocência do suspeito constantemente. Bem como nos faz imaginar diferentes explicações para o mistério em ambas as situações. Hora queremos que seja culpado, hora achamos que a explicação para ele não ser seria mais interessante.

Além do suspense, é curioso assistir ao comportamento de Jeff, que teme fazer parte do mundo luxuoso de Lisa, mas não hesita em momento algum invadir janela a dentro a vida de seus vizinhos. Muito antes dos BBBs, o filme mostra a dificuldade que temos de nos relacionar com o que esta perto em contraste com a necessidade de observar o comportamento alheio. Dar uma espiada! Não tem como ser mais atual.

O elenco bem direcionado também é um ponto forte. Presos apenas a uma sala e com uma única perspectiva do mistério, cabe a eles nos manter interessados. Tarefa que cumprem muito bem com todo o charme de Grace Kelly, o humor de Thelma Ritter e o herói incomum (preso a uma cadeira, praticamente sem ação) de James Stewart.

Uma vez o mistério resolvido, tudo se acalma. Inclusive na vizinhança, onde parecem se resolver até os problemas com os personagens menos importantes (mas muito carismáticos), como a Bailarina, o compositor e a Sta. Coração Solitário. Deixamos nossos protagonistas com a sensação de "missão cumprida", e com a certeza de que devem procurar outros lugares para repousar seus, agora mais discretos olhos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Janela Indiscreta

Cinéfilos fechem suas cortinas!

Janela Indiscreta
Rear Window - 1954- EUA
112min. - Colorido
Suspense

Direção: Alfred Hitchcock

Roteiro: John Michael Hayes

Musica:Franz Waxman

Com: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, James Stewart, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Sara Berner, Frank Cady, Rand Harper e Irene Winston.

Baseado em no conto It had to be murder de Cornell Woolrich, publicado em 1942.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Cinema (mudo) é a maior diversão

A primeira vez que vi Metropolis foi na faculdade, já nem lembro mais qual a disciplina. Tenho certeza de que a gente deve ter discutido aspectos formais sobre o filme, desde o embate homem versus máquina até a estética do expressionismo alemão. Aposto que foi muito interessante, mas o fato é que meu cérebro não registrou muito mais coisa do que essas pinceladas. Tinha esquecido até do enredo do longa! Por isso, ao assistir novamente ao filme para este post, não me preocupei com nenhuma destas informações. Decidi que ia apenas curtir e ponto.

E a primeira providência para isso foi  reaprender que é tão legal ver um filme mudo! Eu não lembrava que era tão divertido! Para mim, que costumo prestar atenção aos diálogos, é um exercício muito interessante notar que, em certos momentos, eles não são tão cruciais assim. A importância de um olhar, de um gesto e do restante do visual do filme dizem tanto quanto uma frase de efeito - ou até mais. Quer um exemplo? Só desta vez reparei que os cenários do filme de Fritz Lang são gigantescos (reparem só no gabinete do poderoso Joh Fredersen): todos os homens ali são minúsculos diante da imponente construção. Perdoem o clichê, mas essa imagem vale mais que mil palavras, sem dúvida.

Mas o que mais me impressionou foi a atuação da atriz Brigitte Helm, que interpreta a Maria.  O restante do elenco é competente, mas a participação dela é algo fora do comum. Ela rouba a cena toda vez que aparece e consegue fazer uma transição incrível entre a moça de preocupações humanitárias, quase uma santa, no início, e a mulher-máquina que veio semear a discórdia entre os trabalhadores. É para ver e rever com gosto.

De resto, não pude deixar de achar uma certa graça no fato de a ciência do inventor Rotwang parecer mais um número de mágica. Mas, tudo bem, era 1927. Se Fritz Lang tivesse acesso à tecnologia que um James Cameron tem hoje, aposto que Metropolis deixaria qualquer Avatar no chinelo...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Bastidores de Metrópolis

Nós convidamos e ele topou. Acompanhe as impressões de nosso leitor/resenhista convidado Daniel Caetano, sobre Metrópolis. Participe mande opiniões você também!


Ao assistir Metrópolis pela primeira vez, tive a clara impressão de se tratar de uma produção que, para sua época, teve proporções similares às de Titanic no cinema moderno. Os cenários são grandiosos para a época, os efeitos especiais, executados direto na película, são bastante bem feitos - deixando com vergonha muitos filmes bem mais recentes. O número de atores é imenso, a atuação deles é esplendorosa para o tipo de mídia e a música "casa" perfeitamente com o filme. O que mais me chamou a atenção, entretanto, foi a ambientação e o enredo, que enfocam aspectos muito relevantes sobre a sociedade humana.

A ambientação é uma mistura curiosa de avanços e anacronismos. Na mesma cena em que aparecem enormes construções, aviões, viadutos inimagináveis para a época... aparecem também carros da década de 1920. O autor imaginou um 2026 como uma extrapolação da vida pós-revolução industrial. É nessa primeira camada do enredo que é apresentada a divisão de classes, entre os operários e a categoria dominante, representada pelo todo poderoso Joh, que gerenciatudo que ocorre a partir de sua sala na torre Babel, e seus "filhos", que aproveitam a vida no Clube dos Filhos. (O filme é repleto de referências religiosas. No caso, "Club of the Sons" pode ser simplesmente uma referência aos "escolhidos", os "filhos de Deus".)

Neste panorama, a ambientação apresenta a tecnologia como um elemento que tem apenas o propósito de servir aos homens da classe dominante, usualmente envolvendo algum tipo de exploração da classe trabalhadora. O filme todo apresenta relógios de 24 horas e de 10 horas, indicando que o dia ainda tem 24 horas em 2026 - ou seja, não semudaram as convenções), mas próximo aos trabalhadores há, muitas vezes, apenas relógios de 10 horas: as 10 horas do turno de trabalho¹, uma situação que o autor imaginou que não fosse mudar pelos próximos 100 anos!

Apesar do foco na questão da exploração do trabalho, o filme não se limita à superfície do problema, aprofunda-se nas razões que levam a essa situação: a falta de comunicação entre as pessoas, sejam elas da mesma classe social ou entre as classes sociais. Esse ponto é reforçado diversas vezes, a começar pela escolha da Babel como o centro de coordenação da organização social vigente e tornando o ponto explícito com a afirmação de que "Todos falavam amesma língua mas ninguém se entendia". Em alguns casos, percebe-se até a dificuldade que algumas pessoas da classe trabalhadora tinham para falar com Joh - e muitas são repreendidas por ele por conta disso. Mesmo o filho de Joh, Freder, tenta se comunicar com o pai, mas este nunca lhe dá uma resposta, apenas lhe olha tristonho. Os únicos que se manifestam mais abertamente para Joh são o líder dos operários e o cientista, Dr. Rotwang, que, curiosamente, representariam uma espécie de "classe média" dentro do contexto filme.

O próprio filme entra mais a fundo e apresenta o motivo da falta de diálogo: a falta de amor, no sentido genérico que nós damos à palavra nos tempos atuais, expressado pela frase que o mediador entre as mãos e a cabeça deve ser o coração (em outras palavras: O elo entre os que pensam a sociedade e os que fazem a sociedade tem que ser o sentimento, o amor pela sociedade). Isso tem duplo sentido: nossas ações devem ser reflexos de nossas razões balizadas pelas nossas emoções... caso contrário, temos um mundo extremamente utilitarista, onde nada tem muito propósito aparente, além de manter o status-quo.

Neste sentido, o filme tem uma roupagem de tragédia grega: nada do que as pessoas fazem tem um grande propósito; ninguém quer salvar o mundo e ninguém quer o bem estar do universo. Todos os personagens tem propósitos bastante limitados: Joh quer manter o status-quo, preocupando-se com o fato de que aparentemente há trabalhadores pensando - fazendo planos; Freder deseja conquistar Maria; Maria tenta manter os trabalhadores unidos até que o portador da mudança venha; a robô Hel tem o propósito de causar a rebelião; os trabalhadores têm o propósito de trabalhar e, em certo nível, Rotwang tem o propósito de se vingar... mas nenhum deles pensa muito além disso, ou seja, o que vai acontecer depois... ou seja, não sabem muito bem qual é o objetivo por trás do que fazem.

Os trabalhadores praticamente nem são retratados fora de seu horário de trabalho², a não ser quando aparecem com Maria, que, aparentemente, cuida dos trabalhadores e das crianças. Freder faz coisas o tempo todo, mas aparentemente sem nexo, como se acreditasse que uma força superior o guiasse. A robô Hel age histericamente,seguindo com seu aparente propósito de causar a discórdia nos operários, mas ela não faz apenas isso: acaba causando discórdia por todo lugar que passa... o próprio cientista, sabendo o caos e as consequências do que Joh lhe pede, as faz assim mesmo, no que chega mais perto de um propósito maior no filme, a já comentada vingança. Nem mesmo Joh, já que ele estimula uma rebelião e, quando ela acontece, ele não sabe o que fazer com ela. Embora, contraditoriamente, ele tenha estimulado uma rebelião pelo medo de uma rebelião futura.

Essa "insanidade" vem do fato que está tudo separado no filme: o pensamento, a ação e o sentimento estão espalhado nos vários personagens do filme; os trabalhadores precisam de alguém que lhes diga o que fazer, e os da classe dominante precisam de alguém que lhes faça as coisas. Entretanto, todos eles perderam a capacidade de sentir, de amar, de se importar: tanto que se tornam incapazes de diferenciar entre uma pessoa de verdade e um robô, algo que para os expectadores é muito fácil (devido à ótima atuação de Brigitte Helm... Helm, Hel... hm!)! Excluindo-se a própria Maria e Freder, nenhum outro personagem parece distinguir a robô Hel de Maria - nem mesmo o Dr. Rotwang, que a criou, consegue diferenciá-las, e isso fica claro no momento em que Maria se pendura no sino e Rotwang tem a aparente certeza de que se trata de Hel.

Considerando a aparência de tragédia grega que o filme traz, alguns dos personagens parecem traduzir a tríade de sentimentos descrita pelos gregos: ágape, filia e eros. Freder encarna o ágape, o sentimento de entrega completa pelos outros, inquestionável e eterno. Um ponto onde isso fica mais evidente é o momento em que ele substitui 11811, um trabalhador que sequer nome tem, em seu trabalho aparentemente sem sentido, apenas para livrá-lo de seu sofrimento. A busca dele por Maria também é um indício deste caminho.

Maria encarna a filia, que é o sentimento próximo da amizade, comum entre pais e filhos e entre irmãos, apreocupação, o cuidar. Isso fica evidente em diversas passagens, desde a primeira vez em que ela aparece, quando ela diz para Freder, sobre as crianças que estão sobre os cuidados dela: "Estes são seus irmãos". Também aparece no momento em que ela cuida dos operários, dizendo para que eles tenham calma, que esperem pela vinda do intermediador.
A robô Hel, por sua vez, encarna o eros, o apreço pelos sentidos carnais e mundanos. Os pontos onde isso é bastante enfatizado é na um tanto despropositada cena em que ela aparece como dançarina erótica, seduzindo a todos, e também quando semeia a discórdia entre os operários, usando para isso de um apelo a aspectos materiais.

Talvez não por acaso a robô Hel (que tinha a imagem de Maria, fora baseada na verdadeira Hel, que havia causado a discórdia entre Rotwang e Joh, e que era mãe de Freder. Uma interpretação possível para a verdadeira Hel é que ela fosse o elo, o coração entre os que pensam e os que agem. Com sua morte, tudo transformou-se em caos; a caoticidade da situação indica o que ocorre quando estes elementos - ação, razão e emoção - todos não andam juntos. Um indivíduo completo e coerente precisa unir todos estes elementos.

O enredo tem ainda uma terceira camada, citando os aspectos religiosos. Desde o próprio nome Babel, passando pelonome do "senhor de tudo", Joh, que perde tudo ao longo do filme, seja no nome de Maria, quando ela faz a posição do sagrado coração de Jesus e, em especial, no momento em que dizem que todo o tipo de pecado ocorre sob seus pés, ainda que nesse caso estejam se referindo, na verdade, à robô Hel. Aliás, o personagem que causa a discórdia é Hel, seja a pessoa, seja o robô, um nome que lembra bastante o termo "inferno" (Hölle, em alemão, e Hell em inglês), relação relativamente reforçada pelo pentagrama invertido sobre a cabeça da robô, em sua primeira aparição e quando lhe é dada a "vida".
Nesta terceira camada, há ainda a preocupação com os lobos (robô Hel) em pele de cordeiro (aparência de Maria)³ e com as desastrosas consequências de se deixar seduzir pelos encantos e possibilidades, algo que aconteceu tanto pelo lado de Joh quanto pelo lado dos trabalhadores. Há, neste caso, uma referência às muitas obras que representam a Revolução Francesa com uma mulher à frente (como a que ilustra o post, La liberté guidant le peuple de Eugène Delacroix): na versão de Lang da "queda da bastilha" de Metrópolis, Hel lidera os operários ao som de acordes da Marselhesa.
Metrópolis é um filme extremamente rico e que, apesar de todas as restrições que a época impunha, impressionabastante, em especial pela atualidade (!) de todos os temas que trata. Um ótimo filme, obrigatório para todos os cinéfilos de plantão.

¹Apesar de a OIT ter indicado jornadas de trabalho de 8 horas diárias já em 1919, isso foi implementado apenas para uma pequena minoria dos trabalhadores. Apenas a partir da crise de 1929 foi que a jornada semanal de 44 ou 40 horas e 8 horas de trabalho diários passou a ser uma realidade para a maioria dos assalariados.
²Só as horas de trabalho deles importa, talvez esse seja o simbolismo por trás do relógio de 10 horas para eles. É importante notar que um único relógio de 12 horas aparece no filme: o de Joh.
³Em alemão, Hell também significa brilho, pureza, dentre outros... acaba dando uma ambiguidade ao nome.

Carnaval na Metrópole

Na verdade, a coisa tá mais para Metrópolis em nosso carnaval. Em 2007 a Mocidade Independente de Padre Miguel, entrou na sapucaí com o enredo "O futuro do pretérito: Uma história feita a mão". Mas, o desfile não ficou só no artesanato não. Rôbos também desfilaram para mostrar que a criatura pode ameaçar o criador. Futuro + revolta + robôs = Metrópolis.

O figurino do primeiro casal de mestre-sala e porta bandeira, faziam referência ao longa de Lang. Assim como a ala Nós, Robôs e o carro abre-alas. Quem disse que cinéfilos e foliões não combinam?

Confiram abaixo fotos e um vídeo do desfile.




Fonte: Folha On-line
Imagens:
UOL Carnaval 2007 - Publius Vergilius/UOL

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Conhecendo a Metrópole

Divergência de classes, amor proibido, mecanização do trabalho, revolta, luta, referências bíblicas, simbolismos, metáforas e um cientista louco (devidamente acompanhado de um robô apocalíptico). Ufa! Nunca imaginei encontrar tudo isso em um filme mudo. Provavelmente porque a maioria de nós tem uma imagem caricata e engraçada em mente quando se fala em cinema mudo. Ok! É claro que as pessoas daquela época tinham mais conteúdo que nossas memórias estão acostumadas, isso se refletia nas artes e Metrópolis, de Fritz Lang, é a prova disso.

No futuro (não muito distante para nós, 2026), a tecnologia avançou espantosamente, as cidades cresceram, e o mundo é dividido em duas classes: a elite e os operários. Os primeiros vivem no luxo da superfície os outros trabalham de sol-a-sol, no subsolo para manter a cidade funcionando. É nesse cenário que o filho do criador Freder (Gustav Fröhlich) conhece a operaria Maria (Brigitte Helm), atira-se em uma paixão fulminante que o faz segui-la até o subterrâneo de Metrópolis. Lá, descobre as condições em que seus "irmãos" operários vivem. Experimenta sua vida de trabalho, se engaja na causa para se tornar o mediador entre as classes. Enquanto isso, na superfície seu pai, Joh Fredersen (Alfred Abel) descobre os planos de revolta (até então pacifica) dos operários e pede ajuda do inventor (Rudolf Klein-Rogge) que aproveita a oportunidade para orquestrar sua vingança.

Rico em metáforas e simbolismos, o longa nos mostra operários sem nome como parte da máquina, do sistema. O ponto prejudicial do avanço da tecnologia. Também fala de conciliação entre inimigos - "O mediador entre o cérebro e as mãos é o coração" - um tanto piegas para os padrões atuais, mas nem por isso menos verdadeiro. O Curioso é que quase 100 anos mais tarde o argumento principal continua atual. E análises para o temas abordados não faltam, consultem o "St. Google".

Ah! A atuação... Exagerada, a ponto de ser engraçada a primeira vista, mas no tom certo para passar a emoção necessária sem que uma frase seja dita. Hoje em dia até achamos graça, mas sinceramente, duvido que qualquer ator atual consiga reproduzir esse tipo de atuação sem cair no caricato, e parecer um bobão na frente da tela. Ao ponto acho dificil que alguém tenha coragem de achar bobo qualquer sequência dramática de Metrópolis.

Analises complicadas a parte, o impressionaste fica por conta da narrativa, mesmo sem som e sem cor e com sequências perdidas, atributos aos quais não estamos acostumados, o filme nunca se torna enfadonho. Se por conta da atuação exagerada, do tema, das caracerístas do expressionismo alemão, não sei dizer.

Mas sei que passei a primeira meia hora lembrando de outras obras. Tim Burton, Matrix, Star Wars, o desenho Os Jetsons, até mesmo do programa Qual é a música? me lembrei (um relógio feito de lâmpadas!). Até me tocar: Ei! Não é Metrópolis que lembra esses filmes, os filmes é que lembram Metrópolis!

Não importa se você já viu. Metrópolis é uma obra que faz parte da cultura mundial, quer percebamos isso, ou não. É por isso que é considerado um dos maiores clássicos do cinema. Fico feliz por estar em nossa lista.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Radio Ga Ga

No post anterior a Geisy mencionou o videoclipe da música Radio Ga Ga, do Queen. Se você ainda não assitiu, eis a sua oportunidade. Realizado por David Mallet, usa cenas da versão restaurada por Giorgio Moroder de Metropolis. Em 1984, a mesma versão de Moroder foi lançada com músicas do Queen como trilha sonora.


Queen Radio gaga
Enviado por timanou76. - Videos de musica, clipes, entrevista das artistas, shows e muito mais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Jura que foi rodado em 1927?


Impossível não chamar certos cineastas de visionários. Fritz Lang foi, certamente, um deles. Filmar um argumento tão crítico e fazer dele uma história interessante e que atravessasse gerações incólume não é fácil. "Metropolis" é referência em História, em Cinema, em Comunicação, e até influência na música - ou você nunca viu o clipe de "Radio Ga Ga"? Uma senhora aula, muito menos enfadonha do que você possa imaginar. Filme mudo? Sim, mas a história não poderia ser contada de modo melhor. Preto e branco? Sim, e com efeitos especiais impressionantes, se você pensar que o filme foi produzido em 1927. História muito bem contada e amarrada, mesmo com os pedaços faltantes - que, aliás, a gente não deixa de perder por causa de uma saída muito esperta.


De cara, pra quem tá tão acostumado a ver filmes visual e sonoramente poluídos, é um choque ter que acompanhar uma história em que só se pode ver o que os atores fazem e o que incrementa as cenas é uma trilha "infinita". Não há pausas para diálogo. Até mesmo nas sequências de palheta (onde a história é contada através do que está escrito, não por imagens) ela está lá, te preparando para a próxima cena. Aliás, agora eu finalmente entendi porque os atores dos grandes estúdios tinham um estilo tão diferente de atuar: apesar de já poderem usar a própria voz para se expressar, ainda era muito forte a interpretação visual. Nunca mais sacaneio esse tipo de atuação. Surte muito efeito. Quem não fica agoniado de ver o terror de Maria ao fugir do cientista lunático? E não foi preciso muita coisa para fazer a cena espetacular: uma boa atriz (exageros à parte, ela diferenciou muito bem a Maria real da Maria-máquina), um ótimo ator muito bem caracterizado, um cenário cru e jogo de luzes. Genial.
Outra coisa que me impressionou muito foi a forma como o diretor mostra homem e máquina como coisas iguais. As máquinas funcionam como seres vivos alimentados com a carne e lubrificadas com o sangue dos operários, como chega a falar a própria Maria-máquina; e os homens trabalham sem descanso, como máquinas, só parando quando a pressão é demais e eles precisam de "reparos". A entrada e saída dos funcionários, os carros correndo para cima e para baixo na grande metrópole parecem sangue correndo nas veias. A máquina principal não pode parar - não lembra muito o conselho dos médicos para cuidar bem da sua saúde?


"O mediador entre as mão e a cabeça deve ser o coração". Esse é o mote o filme. A ácida crítica ao desenvolvimento em detrimento da saúde do cidadão, a ânsia de poder ilimitado, à ganância, as analogias religiosas - nada disso é mais importante do que realmente usar o coração para mediar o que a cabeça pensa e as mãos fazem. É sobre isso que o filme trata e é por isso que continua tão atual. Acredito realmente que "Metropolis" só se mantém tão atual porque não quis se datar. Se tomasse a questão da opressão da classe operária, se quisesse ser anarquista e proclamar rebeliões, se pendesse um pouco mais para o lado religioso e questionasse a criação do universo e o poder de um Deus supremo ao conseguir dar vida à uma máquina - então não seria essa obra maravilhosa. Esse filme só é o que é porque tem tudo isso, mas não é só isso. Não é só o cérebro inteligente que criou ou adaptou a história nem tampouco somente as mãos habilidosas que filmaram e atuaram no filme. É a mensagem que quis passar para o espectador que faz todo o caos ter sentido. Ter coração - sentir compaixão, medo, raiva, amor - isso nos faz diferentes da máquina, que só obedece. Uma pequena dica para sobrevivência em meio ao caos em que vivemos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Curiosidades de Metrópolis

Para tornar nossa viagem mais à Metrópolis mais eficiente começaremos a semana com curiosidades sobre o filme de Fritz Lang. Entre no clima!
  • Metrópolis paradoxalmente costuma ser tido como expoente máximo do expressionismo alemão e ao mesmo tempo como momento derradeiro do movimento. Vamos assistir a outro clássico do expressionismo alemão este ano no DVD, sofá e pipoca: M - O Vampiro de Dusseldorf;

  • Foi a produção mais cara na Europa, naquele período. Principalmente por causa dos cenários e do grande número de figurantes (teve pelo menos 1100 extras), custou na época cinco milhões de marcos e quase levou a Universum Film S.A. à falência;

  • Em 83 anos teve diversas versões com metragens diferentes. Em 1984 Giorgio Moroder colorizou e musicou uma versão. Em 2008, em Buenos Aires, Argentina foram encontrados 30 minutos de metragem deste clássico. Tal parte será restaurada e acrescentada à versão conhecida.

  • Em 2002 ganhou uma versão restaurada em DVD. Um site caprichado, cheio de informações e imagens, foi feito para promover o relançamento;

  • O filme impressionou tanto a Hitler que este chegou a pedir que Goebbels, seu ministro do Povo e da Propaganda, fosse atrás do diretor Lang para que fizesse filmes para o Partido Nazista. Lang então saiu do país, onde chegou a criar filmes contra o próprio nazismo. No entanto, sua esposa The von Harbou, que simpatizava com os nazistas acabou aceitando a proposta e trabalhando para eles.

  • Fritz Lang não gostava da solução "conciliatória" que a esposa, que escreveu o roteiro, deu ao filme e à luta de classes. Chegava inclusive a afirmar que o final era falso. A mensagem contida no final se tornou célebre: "O mediador entre o cérebro e as mãos é o coração";

  • A torre de Metrópolis foi inspirada na obra "Torre de Babel" do pintor flamengo Pieter Brueghel, do século XVI. Cuja imagem ilustra este post;

  • A máscara da ginóide foi inspirada nos trabalhos dos escultores Oscar Schelmmer e Rudolf Belling;

  • C3PO, o droide de protocolo de Star Wars foi inspirado no robô de Metropolis.

  • Dissemos que não, mas a cidade do super-homem tem a ver sim com a Metrópolis de 1927. O nome da cidade do homem de aço é uma total referencia (e reverência) ao filme de Fritz Lang. A própria origem de Superman como vilão dominador de uma cidade e posteriormente como distinto curador de mazelas sociais são ambos temas trabalhados na obra de Lang. O cinema também inspirou o nome do herói: Clark vem de Clark Gable e Kent de Kent Taylor. Mais isso é outra história...

Fontes: Soluço Mental, Adoro Cinema, Wikipédia, Araraquara